Toda Copa do Mundo tem seus campeões. Alguns levantam taças, outros quebram recordes. E há uma terceira categoria, menos celebrada, mas igualmente competitiva: os campeões do ressentimento. São aqueles que assistem a uma atuação extraordinária e, em vez de se impressionar, procuram uma maneira de diminuí-la. Não importa se o sujeito acabou de marcar cinco gols ou de bater uma marca histórica. Sempre haverá alguém disposto a explicar por que aquilo não é tão extraordinário assim.

Nos últimos dias, o pódio dessa competição reuniu Müller e Romário. Um ex-jogador convertido em comentarista e um senador da República em missão paralela na Copa encontraram um ponto em comum: a dificuldade de reconhecer a grandeza alheia sem acrescentar um “mas” logo em seguida.

Erling Haaland marcou quatro gols em dois jogos e levou a Noruega ao mata-mata pela primeira vez em 28 anos. Depois desse feito, Müller, ex-craque do São Paulo e da seleção brasileira, chegou a uma conclusão surpreendente: “O Haaland é um jogador normal, a maioria dos gols dele é dentro da área.” Em seguida, veio a frase que implodiu qualquer chance de a crítica ser levada a sério: “Ele não vem para o meio-campo porque sabe que vai passar vergonha.”

Nem quatro gols em dois jogos bastaram para convencer Müller. Há um registro que não pode ser ignorado: o ex-atacante participou de três Copas do Mundo, disputou dez partidas e marcou dois gols. Haaland precisou de apenas 180 minutos para produzir o dobro. E a comparação fica ainda mais cruel quando se observa como Müller marcou seus gols: exatamente como Haaland costuma marcar os dele – dentro da área.

Se Müller resolveu diminuir um jogador, Romário preferiu atacar uma era inteira. Ele lamentou a suposta escassez de talentos do futebol atual e concluiu que sua geração era superior. O problema é que, enquanto Romário reclamava da falta de craques, Messi seguia quebrando recordes na Copa, Mbappé acumulava números que o colocam na trilha dos maiores da história e Cristiano Ronaldo brilhava mais uma vez na seleção de Portugal. Se esses três não são craques, Romário seria o quê?

Aqui vale um lembrete: quem decretou a decadência do talento mundial é um senador que está nos Estados Unidos acompanhando a Copa, enquanto o Congresso segue funcionando em Brasília. É uma carreira admirável. Pouca gente consegue conciliar, simultaneamente, as funções de comentarista esportivo, lenda do futebol brasileiro e parlamentar em atividade. Talvez por isso sobre tão pouco tempo para admirar Messi.

Publicidade