No dia 28 de agosto do ano passado, a Polícia Federal deflagrou as operações Quasar, Tank e Carbono Oculto, que revelaram que a gestora Reag movimentava ao menos dez fundos para lavar dinheiro de empresas do setor de combustíveis com negócios junto ao Primeiro Comando da Capital (PCC). O dono da gestora, João Carlos Falbo Mansur, era também sócio de um dos principais fundos do esquema, o Mabruk II.

Além de auxiliar o crime organizado, a Reag utilizou sua estrutura para inflar ativos que permitiram ao Banco Master, de Daniel Vorcaro, expandir e alavancar seus negócios. A criação de ativos fictícios em fundos do Master viabilizou a emissão de certificados de depósito bancários (CDBs) com rentabilidade acima da média, gerando um rombo de 50 bilhões de reais no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), órgão que garante aplicações de até 250 mil reais por investidor.

Silêncio da Faria Lima

Uma reportagem da piauí mostra como o centro financeiro da Faria Lima, em São Paulo, silenciou sobre as crescentes suspeitas em relação à Reag e ao Master. A gestora acumulava irregularidades: alocava ativos em fundos de forma indevida, reavaliava patrimônios sem critérios consistentes e deixava de divulgar demonstrações financeiras obrigatórias. Também usava terrenos para inflar artificialmente o patrimônio de fundos e criar ativos sem lastro, apenas para encorpar investimentos. A Anbima – associação que representa empresas do mercado de capitais – detectou frequentes situações fora das normas e aplicou 23 autuações contra a Reag.

Apesar das suspeitas, a Faria Lima convivia bem com a Reag, que em treze anos se tornou a maior gestora independente do distrito, com mais de quinhentos fundos sob gestão e patrimônio de 340 bilhões de reais. A Anbima só retirou seu selo de boas práticas e excluiu a gestora de seu quadro de associados em 15 de janeiro deste ano, data em que a Reag foi liquidada pelo Banco Central. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que havia instaurado 77 processos contra a gestora, transformou apenas oito deles em acusação e até hoje não condenou ninguém.

Rede de operadores veteranos

Acima do emaranhado de empresas – Reag, Trustee, Banvox, Planner – havia a Sefer Investimentos, de Benjamin Botelho, que atuou como braço direito de Daniel Vorcaro, mas também de Maurício Quadrado (ex-sócio do Master) e do empresário Nelson Tanure, suspeito de ser o sócio oculto do Master. Vorcaro confiou à Sefer a gestão dos fundos e empresas que controlavam seu patrimônio pessoal, incluindo imóveis milionários e sua própria participação no Master. A relação é tão estreita que, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, 48% do patrimônio da Sefer – o equivalente a 9,6 bilhões de reais – está ligado a Vorcaro e ao Master.

Para um delegado da Polícia Federal que acompanha as investigações, todos esses operadores circulam na Faria Lima há décadas. “Quando você pega a Compliance Zero”, disse o delegado, referindo-se à operação que prendeu Vorcaro, “essas figuras – Botelho, Quadrado, Tanure e Mansur – operam no mercado há mais de trinta anos.” Vorcaro, hoje com 42 anos, é a exceção etária no grupo.