Em uma operação sigilosa concluída no fim de abril, cerca de 13 kg de urânio altamente enriquecido foram retirados da Venezuela e transportados para os Estados Unidos. O material, com concentração superior a 20% de urânio-235, estava armazenado no Instituto Venezuelano de Pesquisas Científicas (Ivic), nos arredores de Caracas, desde a desativação parcial do reator nuclear RV-1 em 1991.

O comboio militar percorreu os 160 km entre o Ivic e o porto de Puerto Cabello, no Estado de Carabobo, onde o contêiner com o urânio foi embarcado no navio de carga Pacific Egret, da Nuclear Transport Solutions, divisão da Autoridade Britânica de Desativação Nuclear. A embarcação, escoltada por um navio de apoio, seguiu para o complexo nuclear de Savannah River, em Aiken, Carolina do Sul.

A operação envolveu os governos da Venezuela, dos Estados Unidos e do Reino Unido, além da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Em declaração divulgada em 8 de maio, a AIEA classificou a missão como "cuidadosamente planejada, realizada sob rígidas medidas de segurança", alertando que o material nuclear "pode representar um risco de proliferação ou uma ameaça à segurança se cair em mãos erradas".

Segundo Jack Crawford, pesquisador do Royal United Services Institute, o urânio altamente enriquecido (HEU) é usado em reatores de pesquisa e propulsão naval, mas também pode ser empregado para produzir armas nucleares. "Os 13 kg são teoricamente suficientes para serem refinados e produzir uma pequena arma nuclear, ainda que o teor de urânio-235 seja de pouco mais de 20% — o grau militar exige 90%", explicou à BBC Verify.

Origem do urânio venezuelano

O urânio era combustível do reator RV-1, primeiro reator nuclear da América Latina, instalado no Ivic no início dos anos 1960 no âmbito do programa Átomos para a Paz, lançado pelo presidente dos EUA Dwight Eisenhower. O reator, com capacidade de 3 megawatts, operou como reator de pesquisa até 1991, quando foi parcialmente desativado. O fechamento definitivo ocorreu em 1997, e parte do combustível permaneceu sob custódia segura até a retirada recente.

O governo venezuelano solicitou a retirada do combustível restante em 2017, segundo o governo britânico, que se uniu ao planejamento no ano seguinte a pedido da AIEA. No entanto, a captura do presidente Nicolás Maduro em 3 de janeiro, em ação militar norte-americana, foi decisiva para acelerar a operação. O ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Yván Gil, afirmou em 7 de maio que a ação militar "aumentou objetivamente o nível de risco e confirmou a urgência" da retirada, que ocorreu a apenas 50 metros do antigo reator.

Detalhes da operação

A operação começou no início de abril, com a participação das autoridades venezuelanas, da Administração Nacional de Segurança Nuclear dos EUA (NNSA), da AIEA e do governo do Reino Unido. A AIEA supervisionou as salvaguardas e a verificação técnica, enquanto as autoridades britânicas coordenaram o transporte. O navio Pacific Egret deixou de transmitir sua localização via satélite em 11 de abril, quando estava em Charleston, Carolina do Sul. Uma semana depois, estava atracado em Puerto Cabello, conforme imagens de satélite de alta resolução analisadas pela BBC Verify. Em 4 de maio, o navio foi avistado retornando aos EUA, acompanhado por um navio-escolta, e já estava em Charleston em 8 de maio.

O Office for Nuclear Regulation, órgão regulador nuclear do Reino Unido, declarou que foi "um esforço meticulosamente coordenado, com rígidas medidas de segurança em vigor durante todo o processo". O Departamento de Estado dos EUA informou que a operação foi concluída com sucesso e destacou que a NNSA já havia "retirado ou confirmado a eliminação de mais de 7.340 kg de material nuclear para uso militar".

Contexto global de redução de HEU

Segundo a AIEA, a maioria dos reatores de pesquisa construídos nas décadas de 1960 e 1970 utilizava urânio altamente enriquecido, mas hoje as pesquisas podem ser feitas com urânio pouco enriquecido (LEU), com concentração abaixo de 20%. Mais de uma centena de reatores e instalações de produção de isótopos médicos foram fechados ou adaptados para usar LEU, permitindo a recuperação de cerca de 7 mil kg de HEU, aos quais se somam agora os 13 kg da Venezuela.

Com informações de BBC News Brasil.