Uma investigação conjunta do Intercept Brasil e do Drop Site News revela que a Segunda Marquetalia, um grupo insurgente colombiano com base na fronteira com a Venezuela, foi criada como resultado de uma operação encoberta da Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA). O grupo, fundado em 2019 por ex-líderes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), surgiu após a operação ter descarrilado o processo de paz colombiano, empurrando um negociador-chave das FARC de volta ao narcotráfico e à selva.
A operação teve como alvo Jesús Santrich, ex-comandante das FARC e signatário dos Acordos de Paz de 2016. Santrich havia concordado em depor as armas e se tornar congressista, mas, após os EUA solicitarem sua extradição com base em acusações de narcotráfico, ele abandonou a vida civil e lançou a Segunda Marquetalia. “Este caso criou a Segunda Marquetalia”, afirmou Elizabeth Dickinson, diretora de programas para a América Latina e o Caribe da International Crisis Group.
De acordo com a investigação, as negociações para o tráfico de cocaína que levaram à prisão de Santrich foram iniciadas por um informante da DEA que trabalhava para a agência há anos. Todo o dinheiro envolvido no suposto negócio, incluindo milhões de dólares em notas falsas, foi fornecido pelo governo dos EUA. Os cinco quilos de cocaína trocados durante a operação foram fornecidos por um indivíduo com vínculos limitados com as FARC, que agora é testemunha protegida do Departamento de Justiça dos EUA.
Santrich teve envolvimento apenas tangencial no acordo, participando de apenas duas reuniões durante os nove meses de operação, ambas após a cocaína já ter sido trocada. A investigação também aponta que, durante a primeira administração Trump, o Departamento de Estado se recusou repetidamente a cooperar com tribunais colombianos, negando solicitações para entregar evidências mais sólidas contra Santrich.
A operação da DEA ocorreu em novembro de 2017, quando um informante se passando por representante do Cartel de Sinaloa se encontrou com o empresário colombiano Armando Gómez em um hotel em Bogotá para receber uma amostra de cinco quilos de cocaína. Gómez, que cumpriu pena de dez anos em uma prisão federal em Atlanta, afirmou em entrevistas que a reunião foi breve. Após a aprovação da amostra, os informantes exigiram a “bênção” de Santrich para prosseguir com um negócio de dez toneladas, avaliado em US$ 15 milhões. Santrich deu luz verde, mas disse que não poderia se envolver pessoalmente devido ao seu papel no processo de paz.
O que Santrich não sabia é que os dois homens mexicanos eram informantes da DEA, que gravavam secretamente as reuniões. Em abril de 2018, as autoridades colombianas prenderam Santrich e outros suspeitos. O Departamento de Justiça de Trump elogiou a DEA e a Procuradoria-Geral da Colômbia. A prisão de Santrich foi usada pela direita colombiana para questionar o acordo de paz, argumentando que os membros das FARC não eram confiáveis.
A investigação baseou-se em centenas de páginas de documentos judiciais e policiais dos EUA, um relatório da Comissão da Verdade colombiana, uma denúncia judicial colombiana, uma investigação da ONU e entrevistas com Armando Gómez. A ONU concluiu que a operação pode ter sido dirigida por um “agente provocador”, embora não o tenha identificado explicitamente como informante da DEA.
O caso de Santrich exemplifica a estratégia do Departamento de Justiça de criar casos de narcotráfico de alto perfil, apesar das graves consequências políticas em outros países. A operação contribuiu para o enfraquecimento dos acordos de paz e para o surgimento da Segunda Marquetalia, que mais tarde foi usada para justificar a incursão militar dos EUA em Caracas em janeiro, que resultou na prisão do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro.
Com informações de Intercept Brasil.