A operação da Polícia Federal contra o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado, gerou temor no entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A avaliação é de que a crise envolvendo o Banco Master chegou ao Palácio do Planalto e pode enfraquecer o discurso da campanha petista contra o pré-candidato do PL, Flávio Bolsonaro.

Wagner, fundador do PT, ex-governador da Bahia e ex-ministro da Defesa e da Casa Civil no governo Dilma Rousseff, mantém relação pessoal com Lula, que o chama de “meu galego”. Após a operação, Lula telefonou para o senador, que afirmou à Band que o presidente se solidarizou com ele. Wagner nega ter recebido repasses do Master.

Pressão para deixar a liderança

Aliados de Lula avaliam que a permanência de Wagner na liderança se tornou insustentável. O presidente não deve destituí-lo, mas espera que a iniciativa parta do próprio senador. Com aval de Lula, ministros e integrantes do governo da Bahia atuam para convencer Wagner a renunciar, com expectativa de decisão até segunda-feira (22).

Lula telefonou duas vezes para Wagner, mas, segundo aliados, o abalo emocional do senador impediu a discussão sobre a sucessão. O presidente sugeriu que Wagner concedesse uma entrevista para explicações, mas, internamente, as explicações foram consideradas insuficientes. Interlocutores de Lula demonstraram incômodo com a exposição do chefe do Executivo e avaliaram que o senador exagerou ao narrar o contato. Na entrevista, Wagner disse que permaneceria no cargo a menos que Lula decidisse o contrário.

Um grupo no governo considera que Wagner falhou nos últimos meses em articulações, como na derrota da indicação de Jorge Messias ao STF, e se tornou inviável após o rompimento com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

Relação com o Banco Master

Lula já havia questionado Wagner sobre notícias a respeito de sua relação com Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, dono do Master. Em reuniões privadas, o senador teria tranquilizado Lula, afirmando não haver envolvimento. Um dos argumentos de Wagner era que as relações comerciais sob suspeita ocorreram durante o governo Jair Bolsonaro. Ministros de Lula disseram estar surpresos com a revelação de vínculos entre o núcleo familiar de Wagner e Augusto Lima.

Após a operação, Wagner desabafou, citando nomes de políticos investigados por cifras milionárias no caso que não foram alvo de mandados. Em menção à Lava Jato, afirmou que já passou por isso e superará novamente.

Impacto eleitoral

O PT teme que a operação interrompa a recuperação de Lula nas pesquisas. Dados do Datafolha mostram que, após a revelação de que Flávio Bolsonaro pediu dinheiro a Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, o pré-candidato do PL caiu seis pontos no primeiro turno. No segundo turno, Flávio passou de 45% para 43%, enquanto Lula foi de 45% para 47%, dentro da margem de erro de dois pontos. O temor é que o escândalo do Master agora municie Flávio, que falou em “alento” e associou a origem do caso ao PT da Bahia.

Aliados de Lula reconhecem o impacto, mas consideram que os casos não são equiparáveis, pois Flávio é candidato e mentiu sobre sua relação com Vorcaro. Petistas afirmam que continuarão usando o escândalo contra o pré-candidato do PL, enquanto Lula deve insistir na linha de que “cada um que se explique”, adotada em relação ao próprio filho no escândalo do INSS.

Defesa pública

Publicamente, o discurso é de defesa. O ministro de Relações Institucionais, José Guimarães, afirmou que o governo recebeu a operação com “absoluta tranquilidade” e destacou a independência da PF. “O caso Master é do governo anterior. Queremos que as investigações aconteçam com todo o rigor”, disse. “Jaques Wagner é uma liderança importante, que terá todo o direito e nossa proteção para se explicar.”

O presidente do PT, Edinho Silva, defendeu Wagner e afirmou ter confiança na comprovação de sua inocência. Em nota, disse: “Apoiamos todas as apurações envolvendo o Banco Master. Nesse processo, temos confiança de que Jaques Wagner esclarecerá todos os fatos, comprovando a sua inocência.”

O secretário de Comunicação do PT, Éden Valadares, antecipou-se a investidas bolsonaristas, publicando texto em apoio. “Quem autorizou o Banco Master foi o governo Bolsonaro. Quem é íntimo de Daniel Vorcaro é Flávio Bolsonaro. A tentativa de equiparar essas relações é inócua e revela desespero”, afirmou.