Uma operação conjunta do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e da Polícia Federal (PF) resgatou 69 ararinhas-azuis (Cyanopsitta spixii) e duas araras maracanãs de um criadouro particular em Curaçá, no sertão baiano, na última quarta-feira (27). A ação, que durou 16 horas e envolveu 40 pessoas, foi motivada por um surto de circovírus, doença altamente contagiosa entre psitacídeos e sem cura.
A ararinha-azul, endêmica da caatinga brasileira, foi considerada extinta na natureza em 2000 e é uma das aves mais raras do mundo. As aves foram transferidas para um centro de quarentena na Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em Petrolina (PE).
Detalhes da operação
Comandada pela bióloga Cláudia Sacramento, chefe da Coordenação de Emergências Climáticas e Epizootias do ICMBio, a megaoperação contou com 31 profissionais diretamente envolvidos na transferência — entre veterinários, biólogos e tratadores — e nove integrantes da PF, incluindo dois delegados e sete agentes. Também participaram o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema) e o Centro de Conservação e Manejo da Fauna da Caatinga (Cemafauna), da Univasf.
O comboio de nove veículos saiu de Petrolina às 2h50 da madrugada e chegou ao Criadouro Ararinha-azul pouco antes das 6h. Uma viatura com o delegado Ulisses Ultchak, da PF em Juazeiro (BA), e cinco agentes foi a primeira a entrar no local. O segurança não ofereceu resistência. O funcionário australiano Tyson James Chapman, responsável pelo criadouro, assinou o mandado de busca autorizado pela Justiça Federal em Juazeiro, mas não quis dar entrevista.
As equipes usaram equipamentos de proteção individual (EPIs) borrifados com álcool 70% e sanitizante. As aves foram capturadas com puçá, passaram por leitura de microchip, exame detalhado e preenchimento de ficha de avaliação antes de serem colocadas em caixas de transporte.
Surto de circovírus e descumprimento de protocolos
O circovírus, causador da doença do bico e das penas dos psitacídeos, é extremamente contagioso entre araras, papagaios e periquitos, mas não afeta humanos nem aves de produção. Não tem cura e pode levar à morte, com sintomas como embranquecimento das penas e deformidades no bico.
Pelo menos quatro aves contaminadas (segundo teste de dezembro) estavam no mesmo recinto de outras que testaram negativo, o que gerou revolta na equipe. O ICMBio informou que o criadouro descumpriu protocolos de biossegurança, como limpeza e desinfecção diária dos recintos e uso de EPIs. O local foi multado em R$ 1,8 milhão (R$ 1,3 milhão para a empresa administradora e R$ 500 mil para o proprietário, Ugo Vercillo).
Em nota, o Criadouro Ararinha-azul afirmou cumprir os protocolos e que, em 31 de março, enviou às autoridades cópia de teste negativo das 103 aves do plantel. O ICMBio contesta, pois aves comprovadamente contaminadas não podem se livrar do vírus, e só considera testes de dois laboratórios estatais (USP e LFDA, do Ministério da Agricultura).
Contexto e investigações
A transferência ocorreu quase seis meses após a PF deflagrar a operação Blue Hope (esperança azul), que investiga o surto. Um inquérito apura como as aves contraíram o vírus — uma hipótese é que tenham vindo contaminadas da Alemanha, de onde parte foi transferida em 2022, o que o criadouro nega —, se houve maus-tratos e obstrução da investigação.
Ugo Vercillo é ligado à ONG alemã ACTP (Associação para a Conservação de Papagaios Ameaçados), que já deteve 90% de todas as ararinhas-azuis no mundo. Em 2016, o ICMBio iniciou parceria com a ACTP para reprodução e reintrodução da espécie, mas, em 2024, anunciou que não renovaria o acordo após saber que a ONG vendeu espécimes a criadores privados sem consentimento. Em junho de 2024, reportagem da Folha em parceria com o jornal alemão Süddeutsche Zeitung revelou transações milionárias da ACTP com ararinhas-azuis; a ONG negou irregularidades.
Após a saída da ACTP, Vercillo assumiu o criadouro, que mudou de nome para BlueSky Caatinga e depois para Criadouro Ararinha-azul.
Destino das aves e futuro incerto
O trajeto de volta a Petrolina (cerca de 150 km, 50 km em estrada de terra) foi percorrido em três horas, com veículos climatizados. Duas ararinhas com histórico de convulsão não tiveram problemas; uma teve hipoglicemia, mas recebeu soro e chegou bem.
O criadouro comunicou ao Inema a iminência do encerramento de suas atividades, alegando que as ações de fiscalização produziram severos impactos sobre a continuidade do programa, gerando insegurança entre patrocinadores. A empresa solicitou que o Inema adote providências para a destinação das 34 ararinhas comprovadamente contaminadas que ainda estão no local e indique equipe técnica para viabilizar o encerramento do programa de reprodução e reintrodução.
O ICMBio afirmou que já mapeia parceiros para assumir as aves contaminadas, garantindo contenção do vírus, e descartou a eutanásia. “Elas são provas do inquérito. E a gente precisa assegurar que estejam num espaço adequado, com qualidade de vida e para não disseminar o vírus para outras espécies nativas da caatinga”, disse Cláudia Sacramento. Sobre as aves resgatadas, o órgão estuda estratégias para evitar novo surto e retomar o programa de reintrodução. “O que nos move é um dia ver essas ararinhas voando no céu da caatinga”, completou.
Linha do tempo da ararinha-azul
- 1819: Primeira coleta científica na região de Juazeiro (BA) pelo naturalista alemão Johann Baptist von Spix.
- Décadas seguintes: Captura massiva pelo tráfico de animais e desmatamento da caatinga levam ao colapso da espécie.
- 1985: Pesquisador suíço Paul Roth encontra três ararinhas no riacho da Melancia, em Curaçá.
- 1987-1988: As três não são mais vistas; espécie considerada extinta na natureza. Expedição encontra um último exemplar selvagem, macho. Ibama cria comitê de recuperação.
- 2000: Último animal selvagem desaparece; espécie volta a ser considerada extinta na natureza, restando apenas exemplares em cativeiro.
- 2011: Filme “Rio”, de Carlos Saldanha, leva a ararinha-azul aos cinemas.
- 2012: ICMBio lança Plano de Ação Nacional para a Conservação da Ararinha-azul.
- 2016: ICMBio inicia parceria com a ONG alemã ACTP para reintrodução.
- 2018: Reportagem do The Guardian levanta suspeitas sobre o fundador da ACTP.
- 2020: 52 ararinhas chegam ao Brasil vindas da Alemanha para centro de reprodução em Curaçá.
- 2024: ICMBio não renova acordo com ACTP; viveiro passa a ser gerido por Ugo Vercillo. Investigação Folha/SZ revela transações milionárias da ACTP.
- 2025: ICMBio é informado de contaminação por circovírus. PF deflagra operação Blue Hope. Em 27 de novembro, ICMBio retira ararinhas do criadouro e as transfere para a Univasf.
Com informações de Folha — Ambiente.