A Bolívia vive uma onda de protestos que completa um mês, marcada por bloqueios de estradas, confrontos com a polícia e uma crise econômica que se agrava. O presidente Rodrigo Paz, de centro-direita, assumiu o cargo há sete meses em meio à pior crise econômica do país em quarenta anos, com inflação alta, falta de dólares e escassez de combustível.
Para equilibrar as contas, Paz eliminou os subsídios aos combustíveis, que geravam um prejuízo anual de mais de 2 bilhões de dólares. A medida elevou os preços nos postos e desencadeou a insatisfação popular. O presidente também anunciou uma reforma agrária controversa, vista como benéfica para latifundiários e o agronegócio, mas a revogou após os protestos.
As manifestações começaram em 1º de maio, Dia do Trabalho, com uma greve convocada pelo Centro Operário Boliviano. Professores, agricultores e grupos indígenas aderiram. A Federação Camponesa Túpac Katari, ligada ao ex-presidente Evo Morales, iniciou um bloqueio rodoviário em La Paz, impedindo o fluxo de alimentos e remédios.
O desabastecimento levou o governo brasileiro a doar 16 toneladas de arroz e 5 toneladas de leite em pó à Bolívia, ação acompanhada pela gestão do presidente americano Donald Trump, por quem Paz nutre admiração explícita. O vice-secretário de Estado americano, Christopher Landau, classificou a situação como "tentativa de golpe de Estado".
Até o momento, ao menos vinte estradas seguem fechadas, quatro pessoas morreram em confrontos e mais de 100 foram detidas. Três ministros renunciaram. Paz cortou pela metade seu próprio salário e o dos ministros, e convocou os sindicatos para negociação, mas o convite foi recusado.
Para a cientista política Maria Clara Dutra, do Observatório Político Sul-Americano, "Paz foi eleito pelo discurso moderado em meio à decepção e à fragmentação da esquerda, mas não tem se mostrado à altura dos gigantescos desafios na Bolívia". O Congresso abriu a possibilidade de o presidente declarar estado de emergência e usar as Forças Armadas, mas Paz ainda defende o diálogo.
Com informações de Veja.