A investida militar de Israel contra o Líbano, focada em enfraquecer o Hezbollah, transformou-se em um entrave para as negociações de paz com o Irã. De acordo com fontes diplomáticas, Teerã condiciona qualquer conversa sobre cessar-fogo ao fim das hostilidades em território libanês. A situação expõe divergências entre os líderes da ofensiva: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.

Embora ambos compartilhem o objetivo de enfraquecer o Irã — mirando o programa nuclear e a reabertura do Estreito de Ormuz —, discordam sobre a intensidade das ações. Enquanto Netanyahu busca estender o conflito, alimentando a ambição de derrubar a teocracia iraniana, Trump tenta acelerar um desfecho para evitar danos à economia global e à sua popularidade, às vésperas das eleições de novembro.

Pressão americana e conversas tensas

A insistência de Israel em devastar o sul do Líbano, onde o Hezbollah mantém forte presença, levou a atritos diretos entre os aliados. Segundo relatos, um telefonema entre Trump e Netanyahu foi marcado por insultos: o americano teria chamado o premiê de "louco" e cobrado: "Estou salvando sua pele. Todo mundo odeia você". A divulgação do episódio sugere um cálculo político: Trump exibe moderação ao conter o ímpeto bélico, enquanto Netanyahu demonstra suposta visão de estadista ao reduzir os ataques.

Em meio às negociações, Trump alterna ameaças verbais ao Irã com declarações otimistas. Na quarta-feira, 3 de junho, afirmou que Teerã concordou em não desenvolver armas nucleares e sugeriu um possível encontro com o líder supremo Mojtaba Khamenei. O regime iraniano, contudo, não se pronunciou. O clima de esperança logo se dissipou: forças americanas bombardearam a ilha de Qeshm, e o Irã retaliou mirando instalações civis no Kuwait, incluindo o aeroporto internacional, com saldo de uma morte e dezenas de feridos.

Cessar-fogo frágil e escalada no Líbano

O cessar-fogo entre Israel e Líbano, renovado em 3 de junho, permite que os israelenses se defendam apenas quando atacados. No entanto, Israel tem extrapolado esse entendimento, alegando que o Hezbollah descumpre o pacto. No domingo, 31 de maio, tropas israelenses hastearam a bandeira no castelo de Beaufort, ponto estratégico para a milícia xiita, onde não pisavam desde o fim da ocupação em 2000. A ofensiva já causou mais de 3.300 mortes e 1 milhão de deslocados — cerca de um em cada seis libaneses foi forçado a deixar sua casa.

O cientista político Paul Salem, do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, avalia que "as ações de Israel enfraquecem o Hezbollah, mas também o Estado libanês, situação em que a milícia pode acabar se saindo melhor e não traz esperanças de estabilidade".

Crise política e judicial em Israel

Netanyahu enfrenta pressões internas que tornam a guerra uma questão de sobrevivência política. Ministros da extrema direita, como Itamar Ben-Gvir (Segurança Nacional) e Bezalel Smotrich (Finanças), exigem o retorno a um "conflito intenso" no Líbano e defendem abertamente assentamentos israelenses no país vizinho, além da expulsão de palestinos de Gaza.

A situação se agravou na segunda-feira, 1º de junho, quando o parlamento aprovou por 106 votos a zero a primeira leitura para sua dissolução, abrindo caminho para a antecipação das eleições. Paralelamente, os tribunais retomaram as audiências do julgamento em que Netanyahu é réu por fraude e suborno. Com tantos fatores em jogo, o Oriente Médio segue sem trégua, em um cenário de incertezas.

Com informações de Veja.