Uma tradição passada de geração em geração no sertão cearense ganhou uma aliada inesperada: a inteligência artificial. Aos 16 anos, o estudante Raul Victor Magalhães Souza transformou os ensinamentos dos chamados “profetas da chuva” em uma plataforma tecnológica que alcançou 94,5% de precisão nas previsões climáticas e lhe garantiu o primeiro lugar no Prêmio Jovem Cientista 2025.

Morador da cidade de Iracema, no interior do Ceará, o jovem se inspirou nas histórias contadas pelo avô sobre agricultores que, há décadas, observam sinais da natureza para prever a intensidade do período chuvoso na região.

A ideia surgiu justamente da vontade de preservar esse conhecimento tradicional e, ao mesmo tempo, torná-lo mais acessível às novas gerações.

“Hoje, meu avô sabe bastante do meu projeto e realmente se orgulha por eu sempre ter escutado as histórias dele e conseguido repassá-las, fortalecendo a nossa cultura nordestina, que muitas vezes é invisibilizada”, afirmou o estudante.

Sabedoria popular ganhou reforço da inteligência artificial

Os chamados “profetas da chuva” utilizam elementos da natureza para elaborar suas previsões, observando desde o comportamento dos animais até o florescimento de determinadas plantas.

Anualmente, esses agricultores se reúnem em Quixadá, no Ceará, para compartilhar suas análises sobre a próxima quadra chuvosa.

Raul decidiu transformar esse conhecimento em uma ferramenta digital.

Para isso, criou a Inteligência Artificial dos Profetas das Chuvas, um sistema baseado em aprendizado de máquina (machine learning).

A plataforma reúne observações feitas por seis profetas de cinco municípios do Vale do Jaguaribe e as cruza com dados oficiais da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

Entre os elementos analisados estão:

  • halo lunar;
  • florescimento do mandacaru;
  • comportamento de rãs, formigas e aranhas;
  • umidade relativa do ar;
  • temperatura;
  • velocidade dos ventos;
  • volume de chuvas.

O objetivo é simples: ajudar agricultores a planejar melhor suas safras e reduzir os impactos provocados pelas mudanças climáticas.

Leia: Brasileiro de 14 anos vence desafios da NASA e surpreende em competição nos EUA

Plataforma funciona de forma colaborativa

O sistema foi pensado para ser fácil de usar.

Na prática, o agricultor informa à plataforma aquilo que está observando no ambiente ao seu redor. Se notar, por exemplo, a presença de um halo lunar, basta registrar a informação.

A inteligência artificial cruza automaticamente essa observação com os dados meteorológicos oficiais e gera uma previsão personalizada para aquela região.

Segundo Raul, a proposta é democratizar o acesso às ferramentas de previsão do tempo, especialmente para pequenos produtores rurais.

Ciência como ferramenta para enfrentar a crise climática

A edição de 2025 do Prêmio Jovem Cientista teve como tema projetos voltados ao combate às mudanças climáticas.

A escolha não foi por acaso. Segundo especialistas, o Ceará já registrou um aumento de 1,8°C na temperatura média ao longo das últimas seis décadas.

Diante desse cenário, iniciativas que unem inovação, gestão inteligente dos recursos naturais e valorização dos saberes tradicionais ganham cada vez mais importância.

No caso de Raul, a ciência também se tornou uma forma de preservar a própria identidade cultural.

“Nós podemos ir para qualquer lugar do mundo, mas nunca podemos esquecer de onde viemos”, concluiu o jovem pesquisador.