O principal sistema para o transporte de calor do oceano Atlântico, a chamada Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês), pode ser mais instável do que se imaginava, afirma um novo estudo liderado por pesquisadores brasileiros e alemães e publicado na revista Nature Communications.
Segundo os pesquisadores, associados às universidades de São Paulo e Bremen, na Alemanha, com participação do Centro de Pesquisa em Resiliência a Crises e Desastres Climáticos (CLIMARES) da FAPESP, a AMOC pode sofrer variações bruscas de intensidade mesmo quando está enfraquecida.
Isso é relevante porque o sistema é responsável pelo transporte de águas quentes das regiões tropicais para o Atlântico Norte, o que ajuda a regular o clima em escala hemisférica. A AMOC, portanto, pode amenizar as temperaturas nas regiões atlânticas e influenciar padrões de chuvas tropicais na África e na América do Sul, além de desempenhar papel central na redistribuição global de calor oceânico.
A descoberta dos pesquisadores foi feita após a identificação de dois episódios de fortalecimento dessa célula, registrados em dados que cobrem o intervalo entre 17,8 e 14,8 mil anos atrás, durante o período conhecido como Heinrich Stadial 1, quando a circulação estava significativamente mais fraca do que a atual.
De acordo com o estudo, entre 16,5 e 15,8 mil anos atrás, a AMOC sofreu um primeiro pulso de intensificação; e, por volta de 15,4 mil anos atrás, passou por outro pulso curto, com duração aproximada de 100 anos, durante o qual a circulação chegou a superar sua intensidade moderna em determinados momentos.
As informações foram obtidas por meio de datação por radiocarbono realizada em conchas de microrganismos marinhos, os foraminíferos, que registram a composição química do ambiente aquático ao longo de milhares de anos. A técnica permite estimar a chamada “idade de ventilação” das águas profundas, isto é, o tempo necessário para que o carbono da superfície seja transportado até o fundo oceânico.
Os sedimentos analisados foram retirados de uma coluna sedimentar coletada no Atlântico equatorial, em área oceânica próxima à costa do estado do Maranhão.
O estudo sugere, ainda, que a AMOC pode ter papel ativo no ciclo do carbono, uma vez que transporta águas profundas ricas em CO₂ para a superfície no Atlântico Sul e no Oceano Austral, onde parte desse carbono pode ser reemitida para a atmosfera.
Além disso, os períodos de enfraquecimento e intensificação da AMOC parecem estar associados a mudanças significativas no regime de precipitação na América do Sul, com evidências de fases mais úmidas no Nordeste brasileiro durante períodos de circulação mais fraca e reorganizações abruptas do sistema de chuvas regional.
A corrente já é considerada um dos principais pontos críticos (os chamados “tipping points”) do sistema climático terrestre no contexto do avanço das mudanças climáticas, com modelos indicando que seu enfraquecimento até o fim do século pode não ocorrer de forma linear, mas em forma de oscilações rápidas e potencialmente irreversíveis em escalas humanas de tempo.
Nesse cenário, o derretimento acelerado da Groenlândia, o aumento das temperaturas oceânicas e a intensificação do ciclo hidrológico podem atuar conjuntamente na redução da salinidade superficial, o que compromete o afundamento das águas mais densas que alimentam a circulação da corrente essencial para a regulação do clima.
A hipersensibilidade da corrente parece implicar, assim, possíveis disrupções na circulação termoalina global, além de alterações abruptas em padrões climáticos regionais e mudanças no equilíbrio de carbono entre oceano e atmosfera. Apesar disso, os efeitos ainda são difíceis de quantificar com precisão pelos modelos climáticos atuais.