A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou a formação de um novo El Niño, com potencial para se tornar um dos eventos mais intensos desde 1950. Segundo a agência, a probabilidade de que a temperatura da superfície do mar ultrapasse 2°C na região monitorada do Pacífico é de 63%. O fenômeno chega em um momento de fragilidade do agronegócio brasileiro, que já enfrenta endividamento elevado, crédito mais caro, queda na rentabilidade, custos altos de insumos e retração de commodities.

Riscos para o agronegócio

O El Niño provoca aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial, alterando padrões de chuva e temperatura. No Brasil, o efeito costuma ser desigual: excesso de chuvas no Sul, seca severa no Norte e no Nordeste e instabilidade hídrica no Centro-Oeste, região central para a produção de grãos. No campo, culturas como soja, milho, trigo, algodão, café e cana-de-açúcar podem ser afetadas. No Sul, a chuva excessiva dificulta o manejo, favorece doenças e prejudica a qualidade dos grãos. Em Mato Grosso e no Matopiba, a ameaça é o atraso das chuvas e a ocorrência de veranicos durante fases decisivas do plantio.

Impactos na inflação e na energia

A crise climática também pode chegar ao bolso da população urbana. A combinação de quebra de safra, alimentos mais caros e pressão sobre a energia elétrica tende a pesar na inflação. O mercado já projeta o IPCA de 2026 acima da meta, e especialistas avaliam que o fator climático pode adicionar até 0,8 ponto percentual ao índice. O setor elétrico é outro ponto de preocupação: a seca prevista para Norte e Nordeste pode reduzir reservatórios de hidrelétricas e elevar o acionamento de termelétricas, que produzem energia mais cara. Isso aumenta a chance de bandeiras tarifárias mais pesadas e amplia a pressão sobre a conta de luz.

Endividamento e recuperação judicial

A situação se soma a um quadro de inadimplência e recuperações judiciais no campo. Dados da Serasa Experian indicam que o agronegócio fechou 2025 com 1.990 pedidos de recuperação judicial, o maior volume desde 2021. Com crédito restrito, clima adverso e custo maior de produção, o novo El Niño pode transformar uma crise rural em problema nacional de inflação, abastecimento e energia.