A Polícia Federal deflagrou na quinta-feira (18) a 9ª fase da Operação Compliance Zero, que investiga um suposto esquema bilionário de fraudes envolvendo o Banco Master. Entre os alvos estão o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado, e o banqueiro Augusto Ferreira Lima. Foram cumpridos 18 mandados de busca e apreensão expedidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na Bahia, São Paulo e no Distrito Federal. Além disso, foram aplicadas medidas cautelares como proibição de contato entre os investigados e suspensão de passaportes.

Segundo decisão do ministro do STF André Mendonça, relator do caso, Wagner é apontado como suposto beneficiário central das vantagens econômicas investigadas. A PF afirma que ele teria recebido pagamentos e benefícios em troca de apoio a medidas no Congresso que favoreceriam o Banco Master, como a chamada “Emenda Master”. Augusto Ferreira Lima é descrito como gestor ligado ao banco e principal interlocutor privado do senador na suposta entrega de vantagens indevidas.

Valores apreendidos e explicações de Wagner

Na operação, a PF apreendeu cerca de US$ 55 mil e € 33,5 mil. Conforme uma fonte que acompanha as investigações, o dinheiro foi encontrado em dois endereços ligados a Jaques Wagner, um no Distrito Federal e outro na Bahia. Wagner confirmou que os valores são seus, mas negou ilegalidade. Ele explicou que o montante corresponde a diárias recebidas do Senado por viagens internacionais ou a valores que comprou no Banco do Brasil para viagens ao exterior. Afirmou que costuma pagar despesas no exterior com cartão de crédito, sem usar o dinheiro em espécie.

“O presidente Lula ligou para mim para se solidarizar, dizer que mantém absoluta confiança. A gente se conhece há 48 anos e, portanto, ele sabe o meu jeito de agir”, disse Wagner em entrevista à Band.

Wagner negou ter recebido qualquer valor relacionado ao Master ou ter atuado para beneficiar o banco. Também disse não ter relação com Daniel Vorcaro, dono da instituição liquidada que está preso. Afirmou que continua como líder do governo no Senado e mantém o objetivo de disputar a reeleição em outubro.

Reações do PT e defesa

O presidente nacional do PT, Edinho Silva, emitiu nota afirmando que Wagner é “depositário de toda a nossa confiança”. A nota diz: “Apoiamos todas as apurações envolvendo o Banco Master, a sociedade tem o direito de saber a verdade, os crimes cometidos precisam ser apurados e os responsáveis penalizados. Nesse processo de investigação e apuração, temos confiança que Jaques Wagner esclarecerá todos os fatos, comprovando a sua inocência”. A BBC News Brasil tentou contato com a defesa de Augusto Ferreira Lima, mas não obteve retorno.

Os três eixos da investigação

A decisão de Mendonça aponta três linhas principais de apuração envolvendo o senador:

  • Transação imobiliária: Wagner teria encaminhado a Augusto Ferreira Lima dados de um apartamento no empreendimento Poème Horto, avaliado em R$ 2,45 milhões. A compra teria sido feita por outra empresa, em dinâmica que a PF considera compatível com ocultação do beneficiário final. As tratativas teriam ocorrido mesmo após a primeira fase da operação.
  • Recebimento de valores por empresa familiar: A PF afirma que a BN Financeira Ltda., empresa associada ao núcleo familiar de Wagner, teria recebido R$ 3,5 milhões de uma pessoa jurídica vinculada a Augusto Ferreira Lima.
  • Atuação parlamentar em temas de interesse do Master: A polícia aponta que Wagner e Lima trataram de três temas específicos: a PEC 65/2023 (que inclui a “Emenda Master”), a venda do Banco Master ao BRB e a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o Master.

Além disso, há questões laterais, como o uso gratuito de aeronaves vinculadas a Augusto ou ao Master e o recebimento de ingressos para shows no exterior. A decisão cita ingressos para a família do senador para um show em Los Angeles, com valor superior a R$ 63 mil.

A “Emenda Master” e a PEC 65/2023

A chamada “Emenda Master” foi apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) em 13 de agosto de 2024, dentro da PEC 65/2023, que tramita na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. A proposta amplia o limite de aplicações financeiras protegido pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por investidor. Caso aprovada, permitiria a bancos vender mais ativos com 100% de proteção. A PF aponta que Wagner foi contatado por Augusto Ferreira Lima na mesma data da inclusão da emenda, recebendo o link e posteriormente mantendo tratativas.

O Banco Master foi liquidado em outubro pelo Banco Central, e o FGC teve que devolver aplicações até o limite de R$ 250 mil por CPF, gerando o maior rombo da história da instituição, de aproximadamente R$ 52 bilhões. A venda de aplicações com rendimentos exagerados, protegidas pelo FGC, alavancou o banco e é uma das causas da liquidação. A PF investiga se a atuação de Wagner e outros parlamentares visava ampliar esse limite, o que poderia aumentar o rombo.

Contexto da operação

A Operação Compliance Zero foi iniciada em 2025 e apura crimes financeiros, lavagem de dinheiro, organização criminosa e corrupção envolvendo gestores do Banco Master. Na fase anterior, o senador Ciro Nogueira foi alvo, suspeito de receber vantagens para beneficiar a instituição. A investigação aponta que Nogueira apresentou proposta legislativa redigida pelo próprio Master. A decisão de Mendonça destaca que Wagner “não seria mero destinatário passivo de informações, mas interlocutor relevante em temas sensíveis ao grupo econômico investigado”. Em mensagem de 29 de março de 2025, Augusto Ferreira Lima disse a Wagner: “Você mais do que ninguém sabe de minha história e faz parte disso!!””.