Uma nova fase da Operação Compliance Zero, que investiga um suposto esquema bilionário de fraudes envolvendo o Banco Master, foi deflagrada nesta quinta-feira (18 de junho) pela Polícia Federal. Entre os alvos estão o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Senado, e o banqueiro Augusto Ferreira Lima.
As acusações contra Jaques Wagner
Segundo decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do caso, Jaques Wagner é apontado como "suposto beneficiário central das vantagens econômicas investigadas, figurando como agente público em favor de quem teriam sido estruturados pagamentos, benefícios e aquisições patrimoniais". O senador teria recebido pagamentos e benefícios em troca de apoio a medidas no Congresso que favoreceriam o Banco Master, como a chamada "Emenda Master". Wagner nega as acusações.

Augusto Ferreira Lima é descrito pela Polícia Federal como "gestor ligado ao Banco Master, principal interlocutor privado de Jaques Wagner e figura central na suposta entrega de vantagens econômicas indevidas ao parlamentar e a pessoas de seu entorno".
As buscas e apreensões
Foram cumpridos 18 mandados de busca e apreensão expedidos pelo STF na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal. Também foram aplicadas medidas cautelares diversas da prisão, como proibição de contato entre os investigados e suspensão de passaporte. As buscas ocorreram em endereços ligados ao senador, mas não em seu gabinete no Senado.

Na operação, a Polícia Federal apreendeu cerca de US$ 55 mil e € 33,5 mil. Uma fonte que acompanha as investigações afirmou à BBC News Brasil, em caráter reservado, que o dinheiro foi encontrado em dois endereços ligados a Jaques Wagner: um no Distrito Federal e outro na Bahia.
Reação do senador e do PT
Em entrevista à Band, horas após a operação, Jaques Wagner negou ter recebido qualquer valor relacionado ao Banco Master ou ter atuado para beneficiar a instituição. Afirmou ainda não ter relação com Daniel Vorcaro, dono do banco liquidado que está preso. Wagner disse que continua como líder do governo no Senado e mantém o objetivo de disputar um novo mandato em outubro.

"O presidente Lula ligou para mim para se solidarizar, dizer que mantém absoluta confiança. A gente se conhece há 48 anos e, portanto, ele sabe o meu jeito de agir", contou o senador.
Wagner confirmou que os valores apreendidos são seus, mas negou ilegalidade. Segundo ele, correspondem a diárias recebidas do Senado por viagens internacionais realizadas no exercício do mandato ou a valores que ele mesmo comprou no Banco do Brasil para viagens ao exterior. Ele explicou que costuma pagar contas no exterior com cartão de crédito, em vez de gastar o dinheiro em espécie.
O presidente nacional do PT, Edinho Silva, emitiu nota afirmando que Wagner é "depositário de toda a nossa confiança". "Apoiamos todas as apurações envolvendo o Banco Master, a sociedade tem o direito de saber a verdade, os crimes cometidos precisam ser apurados e os responsáveis penalizados", diz o texto. "Nesse processo de investigação e apuração, temos confiança que Jaques Wagner esclarecerá todos os fatos, comprovando a sua inocência."
Os três eixos da investigação
A decisão de André Mendonça detalha três principais frentes investigadas pela Polícia Federal:
- Aquisição de imóvel: Wagner teria encaminhado a Augusto Ferreira Lima dados de um apartamento do empreendimento Poème Horto, avaliado em R$ 2,45 milhões. A compra teria sido feita por outra empresa, em dinâmica que a autoridade policial considera compatível com ocultação do beneficiário final, mesmo após a primeira fase da operação.
- Transferência financeira: A BN Financeira Ltda., empresa associada ao núcleo familiar de Jaques Wagner, teria recebido R$ 3,5 milhões de uma pessoa jurídica vinculada ao núcleo de Augusto Ferreira Lima.
- Atuação parlamentar: A PF aponta que Wagner atuou em temas de interesse do Banco Master, incluindo a PEC 65/2023 (que trata de regras do Banco Central), requerimentos no Senado e a CPI do Master.
Além disso, as autoridades mencionam o uso gratuito de aeronaves vinculadas a Augusto Ferreira Lima ou ao Banco Master, e o recebimento de ingressos para shows no exterior de elevado valor – a decisão cita ingressos para a família do senador para shows de uma cantora em Los Angeles, no valor superior a R$ 63 mil.
A 'Emenda Master' e o contexto
A decisão de Mendonça cita a chamada "Emenda Master", que já havia surgido em fases anteriores da operação. No mês passado, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) foi alvo de uma fase da operação, suspeito de ter recebido vantagens para beneficiar o Banco Master. Uma das acusações é que Nogueira teria apresentado uma proposta legislativa redigida pelo próprio banco para ampliar o limite de aplicações financeiras protegido pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por investidor.
A tentativa de ampliar o limite foi feita por meio da emenda número 11, apresentada em 13 de agosto de 2024, dentro da PEC 65/2023, que está tramitando na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. O texto ficou conhecido como "emenda Master" após a crise no banco.
Segundo a PF, em 13 de agosto de 2024, Augusto Ferreira Lima realizou uma chamada de voz para Jaques Wagner com duração de 9 minutos e 19 segundos e, em seguida, encaminhou o link da emenda ao parlamentar. Em 27 de agosto de 2024, após encontro presencial, Augusto reencaminhou o link. A PF afirma que Wagner "não seria mero destinatário passivo de informações, mas interlocutor relevante em temas sensíveis ao grupo econômico investigado".
A decisão também destaca uma mensagem de 29 de março de 2025 em que Augusto, ao explicar a Wagner os termos da venda do Banco Master ao BRB, afirmou: "Você mais do que ninguém sabe de minha história e faz parte disso!!"
Desdobramentos
A Operação Compliance Zero investiga crimes financeiros, lavagem de dinheiro, organização criminosa, corrupção e delitos conexos atribuídos a gestores e operadores do antigo Banco Master. A instituição foi liquidada pelo Banco Central em outubro de 2024, e o FGC teve que devolver aos investidores até o limite de R$ 250 mil por CPF, gerando o maior rombo da história do fundo, de aproximadamente R$ 52 bilhões.
A BBC News Brasil entrou em contato com a defesa de Augusto Ferreira Lima, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.