O câncer de pâncreas, um dos tumores mais temidos da oncologia por seu diagnóstico tardio e alta capacidade de disseminação, pode estar diante de um avanço significativo. Resultados do estudo internacional de fase 3 RASolute 302, apresentados na reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco) de 2026, mostraram que o daraxonrasib, uma terapia-alvo oral, reduziu em cerca de 60% o risco de morte de pacientes com câncer de pâncreas metastático previamente tratado e praticamente dobrou a sobrevida global em comparação com a quimioterapia padrão.
A proteína RAS, um interruptor molecular que controla o crescimento e a divisão celular, quando mutada fica permanentemente ativada, promovendo a multiplicação descontrolada das células. O daraxonrasib bloqueia essa via, impedindo o avanço do tumor. A repercussão foi incomum: ao final da apresentação, milhares de especialistas aplaudiram de pé. Para oncologistas, o trabalho representa a concretização de uma busca científica que durou décadas, já que a proteína RAS está alterada em mais de 90% dos adenocarcinomas pancreáticos.
Resultados e impacto clínico
O estudo demonstrou redução de aproximadamente 60% no risco de morte e aumento da mediana de sobrevida global de 6,6 para 13,2 meses. Segundo a presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), Clarissa Baldotto, não havia registro de outro estudo com resultados tão consistentes e positivos nessa doença. Ela avalia que os resultados já representam uma mudança concreta no prognóstico dos pacientes com doença avançada. O estudo é de fase 3, etapa considerada suficiente para embasar pedidos de aprovação regulatória e eventual incorporação à prática clínica.
Diferentemente da quimioterapia, que afeta também células saudáveis, o daraxonrasib foi criado para agir sobre a alteração molecular específica presente na maioria dos casos de câncer de pâncreas. Maria Inez Braghiroli, coordenadora do Comitê de Tumores Gastrointestinais Altos da SBOC, explica que as mutações na RAS mantêm ativos os sinais que estimulam a proliferação celular, e o daraxonrasib interfere nesse processo ao bloquear essa via de comunicação.
Desafios superados e diferenciais
Durante muitos anos, a proteína RAS foi considerada "indrogável" devido às suas características estruturais, que dificultavam o desenvolvimento de drogas capazes de bloqueá-la de forma eficaz dentro das células. Os únicos inibidores de KRAS já aprovados — sotorasib e adagrasib — atuam apenas sobre uma mutação específica (KRAS G12C), relativamente rara no câncer de pâncreas. Já o daraxonrasib tem atividade contra um conjunto muito mais amplo de alterações da família RAS, incluindo as mutações mais comuns nessa doença.
Perfil de segurança e próximos passos
O perfil de segurança foi considerado favorável: apenas 1,2% dos pacientes interromperam o tratamento devido a eventos adversos relacionados ao medicamento, contra 11,2% entre os que receberam quimioterapia convencional. Os dados completos ainda não foram divulgados, mas os pesquisadores observaram redução do volume tumoral e boa tolerabilidade.
Os dados precisam ser analisados por agências regulatórias como FDA (EUA), EMA (Europa) e Anvisa (Brasil). Estudos complementares também serão importantes para definir seu papel em linhas mais precoces de tratamento e em combinação com outras terapias. Ainda não há cronograma oficial para chegada ao Brasil; especialistas esperam que os pedidos de aprovação sejam apresentados nos próximos meses, com possível aprovação internacional entre 2027 e 2028, seguida da análise pela Anvisa. O preço ainda não foi definido, mas espera-se um custo elevado inicialmente, e a incorporação ao SUS e aos planos de saúde dependerá de avaliações de custo-efetividade.
Perspectivas futuras
Os especialistas evitam comparar o entusiasmo com o da imunoterapia, mas destacam que, pela primeira vez, uma terapia-alvo dirigida à RAS produziu um ganho expressivo de sobrevida justamente na doença em que essa mutação tem papel mais central. Alterações da família RAS também estão presentes em tumores de pulmão, colorretal e outras neoplasias, o que pode abrir caminho para uma nova geração de medicamentos. No entanto, ressaltam que o diagnóstico tardio continua sendo um dos principais desafios, e melhorias no rastreamento, diagnóstico precoce e acesso ao tratamento continuarão sendo fundamentais.
Com informações de Folha — Equilíbrio e Saúde.