Na quinta-feira (11), a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou o início do fenômeno El Niño. De acordo com a agência, há 63% de chance de que o evento atinja intensidade muito forte entre novembro e janeiro, o que representaria um dos maiores registros desde 1950. No mês anterior, a probabilidade era de 37%.

Probabilidades e classificação

A NOAA estima que o El Niño se desenvolva para um nível moderado ou forte durante o outono do hemisfério norte (entre setembro e dezembro). Um El Niño muito forte significa um aquecimento igual ou superior a 2°C das águas superficiais do oceano Pacífico equatorial, em comparação com a média histórica. As outras classificações seguem a mesma lógica: forte (1,5°C a 2°C), moderado (1°C a 1,5°C), fraco (0,5°C a 1°C) e neutro (-0,5°C a 0,5°C).

O meteorologista Márcio Cataldi, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), afirmou que as previsões indicam a possibilidade de um El Niño muito forte, superior aos registros anteriores, embora dados confiáveis só existam a partir da década de 1980, com o uso de satélites. O climatologista Francisco Eliseu Aquino, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), destacou que o termo "super El Niño" não é técnico, mas reflete a intensidade esperada.

Impactos no Brasil

O El Niño costuma durar entre 9 e 12 meses, com pico de novembro a janeiro. No Brasil, os efeitos variam por região. Segundo nota técnica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o fenômeno pode reduzir as chuvas na Amazônia, aumentando o risco de incêndios florestais. No Sul do país, há tendência de maior volume de precipitação, enquanto o Centro-Oeste pode registrar temperaturas mais elevadas e maior risco de fogo. No Sudeste, o fenômeno costuma elevar a temperatura média, com mais chuvas em áreas específicas e possibilidade de seca em outras.

O episódio mais recente, em 2023 e 2024, foi um dos mais fortes já registrados, associado a seca histórica na Amazônia e enchente catastrófica no Rio Grande do Sul.

Reações do governo

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino determinou que a União e os estados da Amazônia e do Pantanal apresentem planejamento para lidar com o aumento do risco de incêndios florestais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que o governo federal está preparado para enfrentar os reflexos do El Niño, com ações para mitigar impactos e evitar a propagação de queimadas durante períodos de seca.

Efeitos globais

No Sudeste Asiático e na Índia, o El Niño está tipicamente associado a chuvas abaixo da média, com impacto negativo na produção agrícola. As monções fornecem cerca de 70% das chuvas na Índia, setor que representa aproximadamente 18% de uma economia de quase US$ 4 trilhões. Colheitas menores de arroz, algodão e soja são esperadas. Na Indonésia, produtores de arroz antecipam o plantio diante da ameaça de seca prolongada. O ministro da Economia da Malásia alertou para uma queda média de 8% a 10% na produção agrícola.

Kyle Tapley, executivo de vendas empresariais do WeatherDesk da Vaisala Xweather, afirmou que o El Niño normalmente reduz a atividade de furacões no Atlântico, mas um furacão forte ainda é possível. A temporada de furacões nos EUA vai de 1º de junho a 30 de novembro.

A NOAA ressaltou que, embora o El Niño seja um fenômeno natural, sua ocorrência em um cenário de mudanças climáticas pode amplificar os impactos. O ano de 2024 foi o mais quente desde o século 19, e um novo recorde de calor pode estar próximo.