Reino Unido: O primeiro-ministro britânico, Kier Starmer, renunciou ao cargo na manhã de segunda-feira, 22 de junho. Como é que um líder com uma maioria de mais de 150 parlamentares renuncia por falta de popularidade e, mais importante, por perder a confiança de boa parte de seus mais de 400 parlamentares?
Primeiramente, é importante dizer que a renúncia e a subsequente coroação de Andy Burnham nada têm a ver com os eleitores britânicos em geral. E sim, com a dinâmica interna do Partido Trabalhista (Labour). Tem sido assim recentemente com as várias trocas de primeiros-ministros.
Reino Unido e a crise interna do Partido Trabalhista
O que aconteceu? Para responder a esta pergunta, temos de voltar ao comportamento de Starmer enquanto líder do seu partido. Starmer serviu no gabinete-sombra de Jeremy Corbyn e concorreu com uma plataforma de esquerda. Porém, quando assumiu a liderança, não só deixou de lado boa parte destas políticas, que também eram populares com a população em geral, mas promoveu uma caça às bruxas à esquerda.
A liderança de Corbyn pode ser vista como controversa e difícil. Um líder com boas ideias, incapaz de lidar com a virulência da oposição partidária interna, da mídia e de políticos de oposição. Porém, o que não podemos deixar de reconhecer é que Corbyn fez o Labour Party crescer: de aproximadamente 200 mil filiados em 2014 a mais de meio milhão em 2018. Boa parte destes filiados eram jovens (e, curiosamente, mulheres) que entravam pela primeira vez na política partidária e viam em Corbyn a esperança de algo mais radical.
Starmer deixou em muitos filiados um sentimento de traição quando sua orientação política mudou radicalmente à direita, se cercando de assessores ligados a Tony Blair e Peter Mandelson (mais tarde revelou-se a associação íntima de Mandelson com Epstein e Israel). As políticas econômicas se alinharam aos ditames do mercado e o Partido, caçando votos da extrema direita, se tornou socialmente conservador; trocando os jovens idealistas filiados por um eleitorado conservador mais velho que já demonstrava preferência pelo Reform de Nigel Farage.
De acordo com a BBC, até 2025, o Labour perdeu mais de 200 mil filiados. Alguns se desiludiram totalmente com a política, outros procuraram outros portos, como o novo partido de Corbyn, Your Party, ou o Partido Verde.
Labour, Corbyn e a disputa pela esquerda britânica
Para além das mudanças de orientação política, o Labour sob Starmer também resolveu interferir na escolha de candidatos contra a vontade dos filiados locais. Fora a expulsão de Corbyn, que preferiu continuar na disputa a aceitar as ordens do partido. Outras imposições polêmicas seguiram, como a tentativa de forçar a saída de Diane Abbott, a primeira parlamentar negra do país, e, em certos distritos, a direção preferiu perder do que seguir com candidatas populares, como Faiza Shaheen, no leste de Londres.
Seguindo a cartilha blairista, para conquistar o mercado, a equipe econômica descartou o aumento do imposto de renda e a emissão de títulos, reduzindo as possibilidades de saídas para a austeridade. E os primeiros anúncios políticos seguiram nesta linha. Sem perceber que 2024 não era 1997, com boa parte da população castigada por anos por cortes de políticas públicas, empregos de baixa qualidade e economia fraca, polêmicas como a do Winter Fuel Allowance, que visava cortar benefícios de parte da população idosa, e a manutenção do limite de dois filhos para o subsídio Universal Credit, desconcertaram os parlamentares da base trabalhista e deixaram um gosto amargo, destruindo a esperança dos eleitores que também almejavam dias melhores.
Os primeiros atos são importantes. Como é que um primeiro-ministro trabalhista, depois de 14 anos de austeridade, interpreta o país e o Partido tão erroneamente? A caminhada do Labour em direção à direita não ganhou novos eleitores, apenas desagradou a sua própria base. Outros temas afastaram eleitores tradicionais do Partido: Gaza e imigração.
Em relação a Gaza, declarações fracas contra as atrocidades israelenses não se transformaram em ações positivas, tentando sempre agradar a Trump e não abalar as ligações da direção partidária com Israel. Ao mesmo tempo, a degradação dos direitos humanos, principalmente através de restrições ao direito de assembleia, e a prescrição de organizações como Palestine Action como terroristas, afastaram e desiludiram outros. Isso, somado às políticas duras contra a imigração, gerou não só o repúdio dos chamados eleitores metropolitanos, mas também da relevante população muçulmana do país, que se sente como cidadãos de segunda categoria, quando ataques islamofóbicos, cada vez mais comuns, não parecem ter a mesma relevância que os ataques contra cidadãos judeus.
Andy Burnham e o futuro do Labour Party no Reino Unido
No meio disso tudo entra o prefeito de Manchester, Andy Burnham, em seu terceiro mandato, extremamente popular, bem-visto e combativo, principalmente durante a época do covid. Antes de ser prefeito, teve uma carreira parlamentar razoavelmente bem-sucedida, tendo sido ministro nos governos de Blair e Brown. Burnham resolveu voltar ao Parlamento quando surgiu a oportunidade de uma cadeira em nova eleição. Num ato fatal para Starmer, a direção do partido vetou sua candidatura e o partido perdeu o assento para os Verdes.
A sepultura final ocorreu quando as eleições locais resultaram na perda de milhares de vereadores. O nome de Burnham, que já havia sido mencionado como potencial líder, reapareceu; Josh Simmons, parlamentar por Makerfield, renunciou, abrindo espaço para que Burnham voltasse ao Parlamento.
O distrito de Makerfield não seria fácil de conquistar. Tradicionalmente Labour, nas últimas eleições, vem favorecendo a extrema direita. Burnham apostou alto e ganhou. Não só conseguiu se eleger, mas também ganhou com uma votação bem acima do esperado. Em eras políticas mais estáveis, o Labour aprendeu a ignorar seu eleitorado à esquerda. No bipartidarismo, eles não teriam para onde caminhar.
Mas no multi-partidarismo atual, Labour vê seus eleitores migrarem não só à direita, como esperado, mas também à esquerda. O cálculo político e o temor de derrota para a extrema direita fizeram os parlamentares buscarem alternativas que pudessem deter uma derrota do partido. Ao mesmo tempo, o Labour foi sequestrado por uma elite partidária que transformou o Partido em algo irreconhecível.
Andy Burnham é uma incógnita. Muitos o veem como um camaleão que muda com os tempos; mas é um homem do Partido. Muitos talvez, estejam pondo muita fé em sua capacidade de derrotar a extrema-direita; só o tempo dirá. O que é certo é que no Labour, poucas lágrimas rolarão com a saída de Starmer.
Quem sabe possamos ter um novo começo, afinal, o que não se poderia fazer com uma maioria parlamentar de mais de 150 membros?
Julia Spatuzzi Felmanas ex-coordenadora Núcleo Londres, intérprete e Tradutora
Artigo publicado originalmente no site da Fundação Perseu Abramo.