A bióloga e neurocientista da Universidade Vanderbilt (EUA) escreve sobre como as pequenas incertezas da vida, como o clima e o mar, podem trazer prazer. Em sua infância, passava os verões em uma aldeia de pescadores onde seus avós e tios-avós tinham casas de frente para o mar. Ela recorda que o mar aberto era incerto: ora calmo como o Caribe, ora "bravo" ou "de ressaca". A criança que era desejava um mar sempre calmo, mas havia verões de sol intenso e outros chuvosos, como o famoso "Verão da Sucessora", quando chovia o dia todo.

Naquele verão, a família se reunia com barracas de praia, assistia à novela, jogava cartas, e as crianças liam gibis e desenhavam. A única previsão era a imprevisibilidade. Hoje, como neurocientista e adulta, ela considera maravilhoso ter essas pequenas incertezas do clima e do mar. Diferente de outros lugares onde morou, a meteorologia local não acerta, pois há muitos fatores em jogo. O mar continua caprichoso, e ela acha isso fantástico: faz parte da rotina descobrir o humor do mar a cada dia.

As marés não coincidem com as 24 horas do dia, então é difícil prever a altura da água pela manhã. Quando a chuva para, o sol aparece e o mar está calmo, ela sente que é preciso apreciar a sorte de estar vivo e ir tomar banho de mar. Ela já foi presenteada com um mar tão calmo que dava para nadar de braçada, e até seu pai, que não se arrisca na areia, entrou na água com ela.

A neurocientista argumenta que o prazer da vida não está em antecipar e acertar, mas sim nas surpresas. O cérebro aprende com associações entre eventos, mas quando dois eventos ocorrem sempre juntos, não há mais informação. Um sistema de estruturas cerebrais, envolvendo o cerebelo, libera dopamina não como promessa de prazer, mas como sinal de que algo vale o esforço. O que é garantido perde a graça, pois a ação pode ser adiada. Ter surpresas que formam memórias é parte da experiência de estar vivo, e não há surpresa quando a previsão sempre acerta.

A única certeza que ajuda é a da morte: com ela, descobrir-se vivo mais um dia se torna algo digno de comemoração.

Com informações de Folha — Equilíbrio e Saúde.