Para chegar ao Santuário Sabal Palm, um parque no sul do Texas famoso pelas aves silvestres, é preciso atravessar por uma estradinha o muro da fronteira com o México. Com pouco mais de cinco metros de altura, a barreira é feita de barras de aço verticais, enfileiradas a perder de vista. Do outro lado, um veículo da patrulha de fronteira dos EUA monitorava o local, com dois policiais observando quem vai e vem da reserva, à beira do rio Grande (ou rio Bravo, para os mexicanos).

Apesar de o parque ainda estar em território americano, o muro — erguido entre 2007 e 2010 como parte de um corredor não contínuo de 110 km — dificulta o acesso dos moradores à margem do rio. Os policiais proíbem transeuntes de caminhar próximo à barreira, alegando usar as pegadas para rastrear imigrantes ilegais.

Refúgio de palmeiras e aves raras

O Santuário Sabal Palm ocupa 225 hectares, dos quais 12 hectares são de palmeiras-sabal, algumas das últimas que sobraram no Vale do Rio Grande. No passado, as palmeiras dominavam 24 mil hectares da paisagem, irrigadas pelas cheias anuais. Hoje, tudo virou lavoura, com exceção de um delicado e fragmentado sistema de refúgios.

Entre as mais de 400 espécies de aves que frequentam o local ao longo do ano, uma das mais populares é o great kiskadee — o bem-te-vi, comum no Brasil, mas raro nos EUA, onde só ocorre no sul do Texas.

Impacto do muro e do Big Beautiful Bill

O projeto de lei apelidado de Big Beautiful Bill, aprovado em 2025, destina US$ 46,5 bilhões (cerca de R$ 233,5 bilhões) para a construção do muro fronteiriço, sem salvaguardas para reservas naturais. Segundo o biólogo de conservação de aves Justin LeClaire, “não se trata apenas de erguer um muro. O muro exige uma faixa de fiscalização de cada lado, abertura de estradas, instalação de iluminação, construção de portões. O impacto é muito maior do que parece.”

De acordo com a agência federal que controla as fronteiras dos EUA, o setor do Vale do Rio Grande é o mais movimentado do país, concentrando 40% das detenções de imigrantes ilegais e liderando as apreensões de drogas na fronteira sudoeste. Nos últimos três meses de 2025, 5 mil pessoas foram detidas ou impedidas de entrar, contra 20 mil no mesmo período de 2024.

Observação de aves e encontros com a patrulha

LeClaire, que trabalha em uma ONG dedicada às baías e estuários da costa do Texas e coordena o festival de observação de pássaros do Vale do Rio Grande — que atrai 600 pessoas por ano, com 150 passeios em cinco dias —, conta que já foi abordado diversas vezes por agentes da fronteira. “Quando eles percebem meu binóculos pendurado no pescoço, já entendem.” Ele também já viu “duas vezes grupos pequenos atravessando” e encontrou garrafas de água e mochilas largadas na vegetação.

O Vale do Rio Grande é uma pérola para os passarinheiros por ser a convergência de duas das quatro rotas migratórias de aves da América do Norte. Milhões de pássaros passam por aqui, muitos parando para se abastecer por semanas. O sul do Texas reúne biomas diferentes, com influências do deserto de Chihuahuan e das Grandes Planícies, além do clima subtropical, que atrai espécies como o bem-te-vi, o corrupião-de-altamira, o aracuã-de-asas-azuis e a rolinha-inca. O símbolo do vale é o green jay, uma gralha de plumagem chamativa.

“Antes da devastação de terras para agricultura, pecuária e expansão urbana, muitas dessas espécies tinham uma distribuição mais ao norte”, disse LeClaire. Ele cita dois pássaros que sumiram da região: o corvo-de-tamaulipas e o falcão-de-coleira, reintroduzido nos anos 1990 e ameaçado de extinção. “Animais como a onça-pintada, o jaguarundi e a jaguatirica chegavam a ocupar amplas áreas do Texas e avançavam até estados como Louisiana, Novo México e Arizona. Mas com o tempo, empurramos essas espécies de volta ao sul. Não há mais habitat suficiente.”

Foguetes da SpaceX ameaçam outro refúgio

Na região de Boca Chica, a 4,5 km da foz do rio Grande no golfo, o problema não são os muros, mas uma base de lançamento de foguetes da SpaceX, de Elon Musk. Grupos de conservação relatam que um lançamento fracassado em 2023 espalhou blocos de concreto e destroços em chamas pelo refúgio, e outro, em 2024, lançou uma nuvem de detritos que destruiu ninhos de aves e tartarugas. Ainda assim, em 2025, a empresa teve aprovação para aumentar o número de lançamentos anuais de cinco para 25.

LeClaire calcula que, em 12 anos de vida, um maçarico-de-papo-vermelho — subespécie criticamente ameaçada que voa 15 mil km até a Lagoa do Peixe (RS) — chega a percorrer o equivalente a uma viagem até a Lua. “E pensar que um pássaro tão pequeno é capaz de algo tão impressionante. Reforça como todas as paisagens úmidas, ao longo de todo o hemisfério ocidental, estão interligadas.”

Com informações de Folha — Ambiente.