Na quarta-feira (3), Renata Magalhães soube que a história que viveu se repetiu em Santa Catarina. A polícia catarinense prendeu em flagrante Amanda Maria, 37, em Joinville, acusada de estelionato e falsa identidade. Segundo a polícia, ela usava o nome falso de 'Gabriele' e passou 14 meses morando com uma família, fingindo ser adolescente.

No Rio de Janeiro, em 2023, Amanda se apresentava como 'Duda' e foi acolhida por Renata e Viviane Henriques, 45, diretora de um projeto social. As duas amigas costumam acolher crianças vítimas de abuso e com autismo. De acordo com a polícia, Amanda já havia aplicado o mesmo golpe em outros estados, como São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Goiás.

Em audiência de custódia em Joinville, a prisão foi mantida e Amanda reconheceu os delitos. O advogado Rafael Luiz Siewert informou à BBC News Brasil que solicitou à Justiça um exame de sanidade mental, que foi deferido e será realizado pela Polícia Científica.

O acolhimento no Rio de Janeiro

Viviane conta que o primeiro contato com 'Duda' foi pela página do projeto social 'Mãos que abençoam com amor'. A mulher dizia ser uma adolescente que escapou de abusos no Ceará, vítima de um pai 'bruxo' que a obrigava a se prostituir e lhe dava hormônios. Ela afirmava ter pegado caronas com caminhoneiros até Magé, na Baixada Fluminense.

Viviane e Renata foram resgatá-la e alugaram um apartamento em Nova Iguaçu. 'Quando ela contou a história, me apavorou muito, porque eu já lido com esse tipo de situação', diz Viviane. 'As pessoas acham absurdo acreditar. Mas, pessoalmente, ela aparentava ser adolescente, sempre com casaco e capuz. Ela alegava ter autismo e tinha uma fala muito infantilizada.'

As duas amigas cuidaram de Amanda por um mês. 'Eu dei carinho, afeto, comida. Não tinha como desconfiar', conta Renata. Amanda agia de forma infantilizada: pedia mamadeira, chupeta e comidas de criança, mas não pedia dinheiro. Ela também tinha agulhas enfiadas pelo corpo; um raio-X constatou mais de 200 agulhas. 'Saía até da boca, era assustador', diz Renata. Amanda dizia que as agulhas foram inseridas pelo pai em rituais.

A desconfiança começou quando 'Duda' passou a ter comportamentos diferentes com cada uma. Com Renata, tinha 'crises' e ameaçava se machucar se não a tivesse por perto. 'Ela acabou com minha saúde mental, minha vida financeira. Ela me tirou de perto dos meus filhos, fazendo pressão psicológica', lembra Renata, que chegou a dormir na casa da 'adolescente'. Com Viviane, agia normalmente. As duas procuraram a polícia.

A delegada Mônica Areal descobriu a farsa e prendeu Amanda em flagrante por estelionato, falsa identidade e falsidade ideológica. Amanda confessou, mas foi solta após audiência de custódia. A delegada diz que é 'difícil' manter pessoas presas nesse caso, porque o estelionato é visto como sem violência ou grave ameaça. No celular de Amanda, a polícia encontrou buscas sobre 'como um autista se comporta' e 'como fazer desenhos como se fosse uma vítima de abuso'. Areal também encontrou outra investigação em São Paulo, com exame de idade óssea que provou que Amanda não era criança. A Justiça do Rio acatou a denúncia do MP, e ela é ré no estado.

'Claro que a gente fica chateada com a história, não tenho patrocínio para meu projeto, mobilizei pessoas para ajudar. Aí falavam: 'Agora vai parar de ser boba'. Mas eu não vou parar de querer ajudar', diz Viviane. Renata sente 'impotência' ao ver novas vítimas e pede que a 'Justiça seja feita', mas avalia que Amanda precisa de tratamento psicológico: 'Acredito que ela tenha algum tipo de transtorno, que pode ser perigoso. Não é só prender, ela precisa de tratamento'.

O caso em Santa Catarina

Segundo a polícia, em Santa Catarina 'Duda' virou 'Gabriele'. O roteiro foi parecido: para sustentar o disfarce por 14 meses, ela alegava autismo. 'Ela justificava sua aparência física adulta argumentando que seus traços eram decorrentes do uso forçado de hormônios durante a infância', disse a polícia em nota. 'Além disso, para reforçar o papel de criança, a suspeita mantinha comportamentos infantilizados, utilizando rotineiramente chupetas, mamadeiras e objetos lúdicos.'

O delegado Rodrigo Bueno Gusso, responsável pela investigação, afirma que a Polícia Civil foi procurada pela família após serem alertados por uma parente. 'Havia uma tia dessa família que a acolheu, que nunca acreditou nessa história nem nesse comportamento infantilizado', relatou. 'Ao realizar pesquisas na internet, ela descobriu que havia ocorrido um crime muito parecido no Rio de Janeiro, anos atrás, e suspeitou que pudesse se tratar da mesma mulher.' Ao trocar informações com outras polícias, Gusso confirmou a identidade.

Segundo Gusso, ao ser presa, Amanda confessou, afirmou saber que sua conduta era errada e que mentia habitualmente. 'Ela não apresentou nenhuma característica que pudesse indicar inimputabilidade penal. Mostrou-se muito racional, colaborativa e com um raciocínio bastante lógico', afirma o delegado. A prisão temporária foi convertida em preventiva, e Amanda foi encaminhada ao Presídio Regional de Joinville.

O advogado de Amanda em Santa Catarina informou à BBC News Brasil que ela 'permanece à disposição da Justiça em razão da decisão que converteu a prisão em flagrante em prisão preventiva e da necessidade de realização do exame pericial já determinado'. 'A defesa aguarda a conclusão da perícia técnica, que poderá contribuir para o adequado esclarecimento das circunstâncias relacionadas ao caso e para a adoção das medidas processuais cabíveis.'

Com informações de Folha — Cotidiano.