Uma mulher de 37 anos, identificada como Amanda Maria, foi presa em Joinville (SC) sob acusação de estelionato e falsa identidade por se passar por uma adolescente de 12 anos com autismo. O caso ganhou repercussão nacional após a polícia catarinense divulgar a prisão em flagrante na quarta-feira (3 de junho).

No Rio de Janeiro, em 2023, Amanda usava o nome falso de "Duda" e foi acolhida por um mês pela nutricionista Renata Magalhães, 52 anos, e pela diretora de projeto social Viviane Henriques, 45 anos. As duas amigas costumam cuidar de crianças vítimas de abuso e com autismo. Em Santa Catarina, ela se apresentava como "Gabriele" e passou 14 meses morando com uma família.

Segundo a polícia, Amanda já teria aplicado o mesmo golpe em São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Goiás. Em audiência de custódia em Joinville, ela reconheceu os delitos. O advogado Rafael Luiz Siewert informou à BBC News Brasil que solicitou à Justiça um exame de sanidade mental, que foi deferido e será realizado pela Polícia Científica.

O golpe no Rio de Janeiro

Viviane conta que o primeiro contato com "Duda" foi pela página do projeto social "Mãos que abençoam com amor". A mulher dizia ser uma adolescente que escapou de abusos no Ceará, vítima de um pai "bruxo" que a obrigava a se prostituir e lhe dava hormônios para amadurecimento do corpo. Ela afirmava ter pegado caronas com caminhoneiros até Magé, na Baixada Fluminense.

Viviane e Renata foram resgatá-la e alugaram um pequeno apartamento em Nova Iguaçu. "Quando ela contou a história, me apavorou muito, porque eu já lido com esse tipo de situação", diz Viviane. "As pessoas acham absurdo acreditar. Mas, pessoalmente, ela aparentava ser adolescente, sempre com casaco e capuz. Ela alegava ter autismo e tinha uma fala muito infantilizada."

Renata afirma que deu "carinho, afeto, comida" e não tinha como desconfiar. Amanda agia de forma infantilizada: pedia mamadeira, chupeta e comidas de criança, mas não pedia dinheiro. Ela também tinha mais de 200 agulhas enfiadas pelo corpo, constatadas em raio-X, que segundo ela foram inseridas pelo pai em rituais.

A desconfiança começou quando "Duda" passou a ter comportamentos diferentes com cada uma. Com Renata, tinha "crises" e ameaçava se machucar se não a tivesse por perto. "Ela acabou com minha saúde mental, minha vida financeira. Ela me tirou de perto dos meus filhos", lembra Renata. Com Viviane, agia normalmente.

As duas procuraram a polícia. A delegada Mônica Areal descobriu a farsa e prendeu Amanda em flagrante. Ela confessou os crimes, mas foi solta após audiência de custódia. A delegada explica que é "difícil" manter pessoas presas nesse caso porque o estelionato é visto como crime sem violência ou grave ameaça.

No celular de Amanda, a polícia encontrou buscas sobre "como um autista se comporta" e "como fazer desenhos como se fosse uma vítima de abuso". A Justiça do Rio acatou a denúncia do Ministério Público, e ela é ré em um processo no estado.

O caso em Santa Catarina

Segundo a polícia, em Santa Catarina o roteiro foi parecido. Para sustentar o disfarce por 14 meses, Amanda também alegava autismo e justificava a aparência adulta com o uso forçado de hormônios na infância. Mantinha comportamentos infantilizados com chupetas e mamadeiras.

O delegado Rodrigo Bueno Gusso afirma que a família foi alertada por uma tia que desconfiou da história e descobriu na internet o caso semelhante no Rio de Janeiro. Ao ser presa, Amanda confessou, dizendo que sabia que sua conduta era errada e que mentia de forma habitual. "Ela não apresentou nenhuma característica que pudesse indicar inimputabilidade penal. Mostrou-se muito racional, colaborativa e com um raciocínio bastante lógico", afirma Gusso.

A prisão temporária foi convertida em preventiva, e Amanda foi encaminhada ao Presídio Regional de Joinville. O advogado de defesa informou que ela "permanece à disposição da Justiça" e que aguarda a conclusão do exame pericial.

Renata afirma sentir "impotência" ao ver novas pessoas passando pelo mesmo golpe e pede que a "Justiça seja feita", mas avalia que Amanda precisa de tratamento psicológico. "Acredito que ela tenha algum tipo de transtorno, que pode ser perigoso. Não é só prender, ela precisa de tratamento", diz.

Com informações de BBC News Brasil.