Uma mulher de 37 anos presa nesta terça-feira (2) em Joinville (SC) sob suspeita de fingir ter 12 anos para obter ajuda de uma família realizava pesquisas na internet sobre como se comportar como uma criança autista, segundo relato de vítimas. As informações foram divulgadas em vídeo nas redes sociais por duas mulheres que afirmam ter acolhido Amanda Maria Souza de Oliveira por cerca de dois meses em Nova Iguaçu (RJ), em 2023.

Viviane Henriques e Renata Magalhães, que constam como vítimas em um processo de 2023 contra a suspeita, disseram ter sido enganadas por Amanda, que na época tinha 25 anos e se passava por uma criança de 12 anos com autismo. O caso foi registrado como estelionato, falsidade ideológica e difamação, e Amanda foi liberada após a Justiça aceitar um acordo de não persecução penal proposto pelo Ministério Público.

Relatos das vítimas

Segundo Viviane, que lidera o Instituto Mãos que Abençoam com Amor, Amanda pediu ajuda pelas redes sociais, dizendo ter passado por casa de prostituição, que o pai a obrigava a tomar hormônios e que tinha autismo. “Ela parecia uma adolescente obesa, com autismo”, afirmou Viviane, que a abrigou na ONG que costuma receber crianças vítimas de abuso.

A nutricionista Renata Magalhães disse que Amanda tinha comportamento compatível com o de uma criança autista e que foi vítima de rituais de magia negra. Em algumas ocasiões, a suposta adolescente expelia agulhas pela boca, como se as vomitasse. Renata levou a suposta criança para fazer um raio-X, que detectou agulhas no corpo.

As vítimas afirmam ter se sensibilizado com a situação de Amanda, que na época se apresentava como Maria Eduarda, e conseguiram doações de fogão, geladeira, roupas e dinheiro. Ambas não explicaram por que não acionaram o conselho tutelar ou os responsáveis pela suposta criança.

Investigações

As investigações policiais, segundo as vítimas, indicaram que Amanda pesquisava no celular como se comportar como uma criança autista e como fazer desenhos para emocionar pessoas evangélicas. “É uma estelionatária, uma narcisista, uma mulher perigosa. É uma pessoa que desenvolveu uma personagem e criou uma narrativa”, afirmou Renata.

Amanda foi alvo de inquéritos e processos por falsidade ideológica em ao menos cinco estados, sempre enganando pessoas ao se passar por criança, com diferentes nomes. O golpe é aplicado desde pelo menos 2018.

Prisão em Joinville

Nesta terça-feira, Amanda foi presa em flagrante após conseguir abrigo por 14 meses em uma casa em Pirabeiraba, distrito de Joinville. Ela passou a ser tratada como filha adotiva depois de alegar ter 12 anos e ter sofrido abusos no Pará. Segundo a polícia, usava o nome falso de Gabriele e justificava a aparência física alegando ser autista e ter sido forçada a usar hormônios na infância.

O delegado Rodrigo Gusso, responsável pela investigação, afirmou que o caso revela o “alto poder de convencimento e empatia” da mulher. Amanda teve a prisão preventiva decretada após audiência de custódia, e a Justiça acolheu o pedido da defesa para realização de exame de sanidade mental. A Polícia Civil de Santa Catarina concluiu o inquérito e indiciou Amanda por estelionato.

O advogado Rafael Luiz Siewert, que defende Amanda, disse ter identificado elementos que justificaram o pedido de exame de sanidade mental e afirmou que aguarda a conclusão da perícia para adotar as medidas cabíveis. Ele não comentou o mérito do caso nem os demais processos contra a investigada.

Com informações de Folha — Cotidiano.