Pouco mais de dois anos após as chuvas que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024, o fenômeno El Niño está de volta. Caracterizado pelo aquecimento acima da média das águas do Pacífico equatorial, o El Niño ocorre naturalmente, mas a mudança climática provocada pelo homem vem exacerbando seus impactos potencialmente catastróficos.

A influência do aquecimento global no El Niño

O meteorologista Tércio Ambrizzi, diretor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEA-USP), afirma que o calor da atmosfera e o aquecimento global provavelmente estão afetando os eventos de El Niño. "Existem vários sinais observacionais apontando nessa direção, embora ainda haja incertezas sobre exatamente como isso acontece", diz ele.

O oceano desempenha um papel central na regulação climática, distribuindo calor dos trópicos para os polos. Ele também absorve cerca de 30% das emissões de carbono e 90% do calor acumulado na atmosfera. Quanto mais carbono e calor a humanidade produz, mais energia é injetada nesse sistema, alterando sua dinâmica natural.

O que são El Niño e La Niña

El Niño e La Niña são fases opostas da Oscilação Sul-El Niño (ENSO), um dos padrões climáticos mais poderosos da Terra. Enquanto o El Niño está associado a um Pacífico Equatorial mais quente, a La Niña ocorre quando as águas ficam mais frias que a média histórica. Quando as temperaturas estão dentro da média, considera-se neutralidade. Esse sistema muda padrões de ventos, pressão e precipitações.

"O El Niño é um sistema quase milenar. Temos dados instrumentais desde 1500 mostrando sua existência, além de dados paleoclimáticos que indicam que ele já existe há muito tempo", explica Ambrizzi.

Frequência e intensidade em alteração

A oceanóloga Regina Rodrigues, pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e membro da Rede do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas, destaca que o El Niño atua como regulador de calor e energia. "Antes das mudanças climáticas, havia um equilíbrio energético: o El Niño aquecia, a La Niña resfriava, e o sistema oscilava como uma mola. Agora, com as mudanças climáticas, o homem está desestabilizando esse equilíbrio", afirma.

Segundo Rodrigues, El Niños fortes costumavam ocorrer com intervalos de 10 a 15 anos, como nos eventos dos verões de 1982/1983, 1997/1998 e 2015/2016. "Agora, tivemos um El Niño intenso em 2023/24 e já vamos ter outro em 2026/27", ressalta. Ela acrescenta que os modelos climáticos projetavam exatamente o que se observa: El Niños fortes mais frequentes, intercalados por La Niñas, com poucos períodos neutros — fundamentais para o planeta se recuperar de extremos de temperatura. Desde 2014, houve apenas um ano neutro.

"A temperatura do oceano vai para cima e para baixo rapidamente porque está tentando redistribuir o calor excedente, porque o sistema está desequilibrado", explica a pesquisadora.

Eventos extremos mais severos

A mudança climática também parece intensificar os impactos dos eventos extremos associados ao El Niño. "Ondas de calor, secas e chuvas intensas estão se tornando muito mais severos", afirma Ambrizzi. "Mesmo que o El Niño não seja necessariamente mais forte em todos os casos, uma atmosfera mais quente tende a ampliar seus impactos."

No entanto, o meteorologista pondera que ainda há incerteza sobre a dimensão dessa influência e a dinâmica exata entre os dois fenômenos. "Ainda não conseguimos entender completamente nem a dinâmica do próprio El Niño. Por exemplo, não sabemos exatamente como ele se forma. O oceano modifica os padrões da atmosfera e favorece o El Niño? Ou são modificações atmosféricas que interferem no oceano e acabam gerando o fenômeno? Essa ainda é uma grande incerteza dentro da comunidade científica", diz.

"Ainda assim, é muito possível que o que estamos observando hoje seja uma combinação dos dois fatores", conclui o pesquisador da USP. Ou seja, a tendência de aquecimento do Pacífico tropical que caracteriza o El Niño soma-se ao fato de que os oceanos, de maneira geral, absorvem calor extra da atmosfera, favorecendo-se mutuamente.