O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), recusou-se por cinco vezes a confirmar se pediu ao banqueiro Daniel Vorcaro a liberação de um empréstimo de ao menos R$ 22 milhões do Banco Master para uma empresa de sua cunhada, Bianca Medeiros, irmã de sua esposa, Luana Motta. A recusa ocorreu durante entrevista ao jornal Estadão.

A Polícia Federal (PF) encontrou no celular de Vorcaro diálogos nos quais Motta solicita diretamente a liberação do crédito, segundo fontes com acesso às investigações. Questionado repetidas vezes, Motta não confirmou a informação e limitou-se a defender a legalidade da operação.

Respostas evasivas durante entrevista

Na conversa com o Estadão, Motta foi perguntado se sabia do empréstimo e se havia intercedido junto ao banqueiro. Em sua primeira resposta, afirmou: “Quando você precisa de um empréstimo, você procura quem? O banco, não é? E a minha cunhada, que representa os negócios do meu sogro, procurou um banco. O banco tava legal à época? Podia operar? Ela tinha um crédito para poder fazer? Então foi uma operação legal. Não tem ilegalidade de nada”.

Diante de novas perguntas, repetiu que não havia ilegalidade. A reportagem então citou a apuração de que Motta havia pedido o empréstimo por WhatsApp a Vorcaro. Em resposta, o presidente da Câmara disse: “O empréstimo é legal. O empréstimo é legal feito por uma empresa que tem lastro. E ele tinha uma instituição que estava funcionando dentro das regras. Está dentro da legalidade”.

Na quinta tentativa, questionado diretamente se pediu a liberação do crédito, Motta declarou: “Eu não vou confirmar a informação. Eu não tenho obrigação de confirmar isso. Se você tem a apuração, você publica a apuração”. Após uma pausa para conversar com a deputada Renata Abreu (Podemos-SP), acrescentou: “E só para registrar, o empréstimo está sendo pago pela empresa”.

Investigação da Polícia Federal

As mensagens entre Motta e Vorcaro foram encontradas pela PF durante a Operação Compliance Zero. O diálogo ocorreu antes de Motta assumir a presidência da Câmara e mostra o parlamentar pedindo a liberação do crédito, conforme relataram fontes ao Estadão.

O empréstimo, concedido em março de 2024, foi destinado à compra de um terreno em João Pessoa (PB), onde está prevista a construção de um novo bairro. O documento da operação está registrado na Junta Comercial da Paraíba em nome de uma empresa de Bianca Medeiros. Procurada, ela não se manifestou.

Viagem a Lisboa e possíveis contrapartidas

Além do empréstimo, a PF investiga o pagamento de uma viagem de Motta e do senador Ciro Nogueira (PP-PI) a Lisboa, em 2024, bancada por Vorcaro. Segundo a polícia, o banqueiro determinou o pagamento de cinco diárias de “suíte jr.” no Four Seasons Hotel, com custo estimado de R$ 90 mil cada, com base na cotação do euro da época. Motta afirmou que viajou de “carona” no voo de Vorcaro, a convite de Ciro Nogueira.

A PF também apurou que Vorcaro cobrou de um funcionário garantia de privacidade na organização de um jantar em Lisboa que contaria com a presença de Ciro e Motta, então deputado federal.

Os investigadores analisam se há relação de contrapartida entre o empréstimo e uma emenda parlamentar apresentada por Hugo Motta para obrigar seguradoras e instituições financeiras a aplicar recursos em créditos de carbono, o que favoreceria negócios da família Vorcaro. Até o momento, não há inquérito formal contra Motta.