Um estudo publicado no último sábado (28) no Journal of Experimental Biology revelou que mosquitos da espécie Aedes aegypti podem ser condicionados a associar o cheiro do repelente DEET com a presença de alimento. A descoberta sugere que a resposta dos insetos ao composto não depende apenas de sua composição química, mas também de experiências anteriores.
O DEET (N,N-dimetil-meta-toluamida) é o princípio ativo mais comum em repelentes comerciais desde os anos 1950. Ele atua inibindo os receptores olfativos dos mosquitos, mascarando os odores da pele humana que os atraem. No entanto, os pesquisadores observaram que, quando expostos repetidamente ao DEET durante a alimentação, os mosquitos passaram a ignorar o repelente.
Condicionamento pavloviano em laboratório
Os cientistas realizaram experimentos com mosquitos presos em gaiolas, diante de um saco com sangue quente de ovelha. Eles monitoraram os movimentos do probóscide, o aparelho bucal usado para picar. Em seguida, aplicaram um condicionamento semelhante ao experimento clássico de Pavlov: borrifaram DEET na gaiola no momento em que os insetos se alimentavam.
Após quatro repetições, mais de 60% dos mosquitos tentaram se alimentar quando expostos apenas ao DEET. Em um teste adicional, uma pesquisadora ofereceu as mãos — uma mergulhada em solução com repelente e outra limpa — aos insetos. Cerca de metade dos mosquitos condicionados tentou picar a mão tratada, enquanto os não condicionados atacaram somente a mão limpa.
Implicações e limitações
Segundo Clément Vinauger, supervisor do estudo, os resultados indicam que "o cérebro do mosquito pode reescrever essa resposta com base na experiência". Claudio Lazzari, autor principal, ressaltou que o DEET continua sendo o "padrão-ouro" entre os repelentes, mas alertou para uma possível vulnerabilidade: se a concentração do produto diminuir ao longo do tempo e o mosquito conseguir se alimentar, ele pode associar o odor a uma recompensa.
Os próprios pesquisadores destacam que o estudo foi conduzido em laboratório, com linhagens criadas em cativeiro, e que os achados não necessariamente refletem o comportamento de mosquitos selvagens. Ainda assim, os resultados acendem um alerta sobre como os repelentes são usados no mundo real.
A aplicação de repelentes segue como uma das principais recomendações para evitar picadas, especialmente porque os mosquitos são vetores de doenças como dengue, chikungunya, febre amarela e malária — esta última responsável por tornar esses insetos os animais que mais matam seres humanos no mundo.
Com informações de Super Interessante.