A taxa de mortalidade em centros de detenção de imigrantes administrados pelo Serviço de Imigração e Controle Aduaneiro dos Estados Unidos (ICE) mais que dobrou desde o retorno de Donald Trump à Presidência, de acordo com uma análise da agência Reuters divulgada nesta quarta-feira (17). Especialistas ouvidos pela reportagem manifestaram preocupação com o atendimento médico e a supervisão dos detidos.
O levantamento, realizado pelo Deportation Data Project e processado pelo Vera Institute of Justice, mostra que, entre 2009 e 2024, a média foi de 0,26 morte por 1.000 presos nas instalações do ICE. A partir de janeiro de 2025, com o início da nova política de deportações em massa de Trump, a proporção saltou para cerca de 0,61 morte por 1.000 presos — um aumento de 2,36 vezes.
Número de óbitos e expansão da população detida
Segundo a Reuters, ao menos 50 pessoas morreram sob custódia do ICE desde o início do segundo mandato de Trump. Especialistas consultados afirmam que as causas das mortes nem sempre indicam negligência, mas consideram o aumento um sinal de alerta sobre a qualidade da supervisão e da assistência médica oferecidas aos detidos.
O crescimento das mortes ocorre em paralelo à expansão da população encarcerada pelo sistema de imigração. Em janeiro de 2025, cerca de 40 mil imigrantes estavam sob custódia do ICE — número já superior ao mínimo de aproximadamente 14 mil registrado em fevereiro de 2021, durante o governo de Joe Biden e a pandemia de Covid-19. Com Trump, a população detida atingiu um pico de cerca de 70 mil pessoas durante uma operação de repressão migratória em Minneapolis, antes de recuar para aproximadamente 57 mil no início de junho.
Principais causas: suicídios e problemas cardíacos
Entre as 50 mortes registradas desde janeiro, 21 ocorreram após os detentos serem encontrados inconscientes ou já sem vida. Desses, 10 foram classificados como suicídio. Sanjay Basu, médico da Universidade da Califórnia em São Francisco e um dos especialistas que analisaram os dados para a agência, afirmou que esse tipo de ocorrência é particularmente preocupante por poder indicar falhas na supervisão da saúde física e mental dos detidos e demora no atendimento de emergências.
Ataques cardíacos e outras complicações cardiovasculares responderam por 16 das mortes registradas. A frequência desses casos pode indicar problemas na triagem médica inicial e no acompanhamento de doenças crônicas dentro dos centros de detenção.
Redução na transparência dos relatórios
Outro ponto levantado pela investigação é a redução da quantidade de informações divulgadas pelo governo sobre as mortes ocorridas sob custódia do ICE. Muitos relatórios recentes omitem detalhes presentes em documentos de anos anteriores, como histórico médico dos detidos, medicamentos administrados e informações sobre atendimentos de emergência.
Um caso citado é o de um imigrante hondurenho que apresentava sintomas de abstinência alcoólica e morreu em uma unidade de Nova York menos de 24 horas após passar por avaliação médica. Segundo a Reuters, o relatório oficial não esclarece se os medicamentos prescritos chegaram a ser administrados nem detalha as medidas adotadas antes da morte.
Resposta do governo
O Departamento de Segurança Interna (DHS), responsável pelo ICE, afirmou que está comprometido em garantir um ambiente “seguro, protegido e humano” para os detidos. Em nota, a porta-voz Lauren Bis declarou que os imigrantes recebem atendimento médico completo desde a chegada às instalações e durante todo o período de permanência sob custódia.