A quadrinista e cineasta iraniana-francesa Marjane Satrapi, autora da aclamada graphic novel autobiográfica 'Persépolis', faleceu na França. A informação foi divulgada por amigos à imprensa francesa. A causa da morte não foi oficialmente confirmada, mas conhecidos relataram que ela teria falecido cerca de um ano após a morte de seu marido, Matteo Ripa, com alguns descrevendo o ocorrido como 'por tristeza'.
Nascida em 22 de novembro de 1969 em Rasht, no Irã, Satrapi cresceu em Teerã em uma família de esquerda. Aos nove anos, testemunhou a Revolução Iraniana de 1979, e sua adolescência foi marcada pelo aumento das restrições às liberdades individuais, especialmente para as mulheres. Aos 14 anos, durante a Guerra Irã-Iraque, foi enviada para Viena, onde viveu isolada. Após retornar ao Irã e estudar Comunicação Visual, mudou-se para a França em 1994, onde construiu sua carreira artística.
Em 'Persépolis', publicada em quatro volumes a partir de 2000, Satrapi narra sua infância sob a República Islâmica, a repressão política e a dolorosa partida para a Europa. A obra, em preto e branco, retrata a complexidade da sociedade iraniana e as consequências da ascensão do aiatolá Khomeini. Em entrevistas, ela afirmou que, aos 10 anos, se preparava para se tornar uma prisioneira política, tamanha a atmosfera de repressão. O livro ganhou prêmios, como o do Festival de Angoulême, e foi adaptado ao cinema em 2007, vencendo o Prêmio do Júri em Cannes.
O presidente francês, Emmanuel Macron, prestou homenagem, chamando-a de 'uma grande artista' que transformou sua infância em 'uma lenda universal'. O cartunista Joann Sfar escreveu: 'Você mudou o mundo com quadrinhos'. Riad Sattouf, autor de 'O Árabe do Futuro', afirmou que seu trabalho 'abriu um caminho que muitos seguiram'.
Satrapi também publicou outras obras, como 'Bordados' e 'Frango com Ameixas', e dirigiu o filme 'Radioactive', sobre Marie Curie. Em 2023, lançou a graphic novel 'Mulher, Vida, Liberdade', em apoio ao movimento de mesmo nome no Irã, que surgiu após a morte de Mahsa Amini. Na introdução, escreveu que o livro busca explicar os eventos no Irã e mostrar aos iranianos que 'eles não estão sozinhos'.
Satrapi consolidou-se como voz feminista, embora se distanciasse de rótulos. Em 2024, recusou a Legião de Honra francesa, criticando a 'política hipócrita' do governo em relação ao Irã. Ela argumentou que jovens iranianos que lutam pela liberdade não conseguem vistos de turista, enquanto filhos da oligarquia iraniana passam férias na França. Seu legado é marcado pelo uso de histórias pessoais para desafiar visões simplistas do Irã e de seu povo.
Com informações de Folha — Ilustrada.