Moradores da zona sul de Porto Alegre organizam neste domingo (7) uma mobilização para exigir a preservação permanente da mata do Arroio Espírito Santo, uma área de 12,9 hectares localizada às margens do Guaíba, ao lado do Clube do Professor Gaúcho. O ato, convocado pelo movimento Preserva Zona Sul, ocorre em referência ao Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho.
A concentração está marcada para as 10h na Avenida Guaíba com a Rua Déa Coufal, no bairro Ipanema. Às 11h, os participantes saem em caminhada em direção à mata. O movimento reúne moradores de Ipanema, Espírito Santo, Guarujá e arredores, além de lideranças e entidades apoiadoras.

A disputa pela área se arrasta há décadas, opondo interesses ambientais e imobiliários. O terreno, antes associado à Maiojama e ao antigo projeto do Loteamento Ipanema, agora está vinculado à Consplan, que deve apresentar um novo projeto para o local. Uma liminar desde 2018 impede o desmatamento enquanto a ação judicial tramita.
O tema ganhou força após a enchente de 2024, quando a região alagou. Moradores defendem que a mata, o arroio e as áreas alagáveis funcionam como infraestrutura natural de proteção da cidade. A principal reivindicação é a criação de uma Área de Proteção Ambiental (APA), instrumento que depende do poder público.

“Estamos em um momento de retomada da mobilização, depois da pandemia e depois da enchente. A Justiça tem seus ritmos, seus trâmites, e a mobilização é importante em cada momento em que uma decisão precisa ser tomada”, afirma Denise Moreira, integrante do Preserva Zona Sul.
Segundo Moreira, o antigo Loteamento Ipanema previa a abertura de ruas e a construção de 16 prédios de dez andares no local. “Era um projeto muito grande. Não ia sobrar muita coisa da mata. Quase nada”, recorda. Ela afirma que a mobilização de moradores foi decisiva para impedir o avanço do projeto.

O movimento também organiza um abaixo-assinado para pressionar o poder público a transformar a área em APA. A inundação de 2024 alterou o peso político da mobilização, com moradores defendendo que a área seja reconhecida pela função de retenção natural das águas.
A moradora Dilva Iria Thoma, que vive há 23 anos na Avenida Guaíba, no bairro Guarujá, relata que na enchente de 2024 a água atingiu sua casa e todo o terreno. “Ficamos 45 dias com água dentro de casa”, afirma. Para ela, a mata do Arroio Espírito Santo protege o entorno contra alagamentos e ameniza o calor, além de abrigar animais.
“Por isso, acredito que preservar essa mata é fundamental. Todo verde ajuda na proteção da região. Mata viva, sim. Condomínios, não”, diz Thoma.
Moreira também destaca que a defesa da área ultrapassa a preservação ambiental. “É uma preservação ambiental, mas também da paisagem natural, do estilo de vida e da qualidade de vida. A gente entende que faz parte do meio ambiente”, afirma. Ela aponta que a região já sofre com adensamento urbano, trânsito e pressão sobre serviços públicos.
A luta pela preservação atravessa mais de duas décadas. Após o Conselho Municipal do Meio Ambiente (Comam) decidir pela inadequação ambiental do projeto, a União pela Vida (UPV) denunciou ao Ministério Público, dando origem a uma ação civil pública. Em 2018, a mobilização ganhou novo impulso, com caminhadas que reuniram cerca de 800 pessoas e um abaixo-assinado com 35 mil assinaturas.
O advogado Marcelo Mosmann, que atua na ação civil pública, afirma que a mata não corre risco imediato de derrubada. “Não existe risco de desmatamento neste momento. A liminar está mantida, e o processo vai analisar eventual conciliação. Se não tiver, vai para as fases de instrução, audiência e prova pericial”, explica. Segundo ele, a empresa procurou o Judiciário para apresentar uma nova proposta, e uma audiência de conciliação foi realizada no início de 2026.
A proposta está em análise técnica pelas entidades autoras da ação, que avaliam se o projeto respeita as regras ambientais de proteção do arroio, da mata e das espécies ameaçadas.
O presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), Heverton Lacerda, afirma que a defesa da mata deve ser compreendida dentro de uma discussão mais ampla sobre o futuro urbano de Porto Alegre. “Temos claro que as estratégias de urbanização das cidades não podem ser conduzidas por empresas do setor imobiliário, que têm o lucro como objetivo principal. A lógica de mercado não serve para planejar cidades”, diz.
Lacerda destaca que os poucos espaços de ambiente natural que restam na cidade “são alvos constantes do mercado imobiliário” e precisam ser preservados pelos serviços ambientais que prestam, como absorção de águas da chuva e climatização. Para ele, a enchente de 2024 deveria servir de alerta sobre a falta de planejamento público.
O Brasil de Fato RS procurou a Maiojama e a Consplan para comentar a situação da propriedade e o projeto previsto, mas não obteve retorno até a publicação.
Com informações de Brasil de Fato.