O Recife enfrenta uma contradição urbana: enquanto cresce o número de pessoas em situação de rua e de domicílios vazios, o custo da moradia, do transporte e dos serviços básicos também aumenta. Famílias convivem com insegurança territorial, comunidades sofrem ameaças de remoção e morar com dignidade torna-se um desafio para quem trabalha e sustenta a cidade, segundo análise de uma vereadora eleita do Recife, mulher negra, mãe, feminista, trabalhadora do comércio informal e militante do MTST.
A cidade, que nos anos 1980 foi pioneira ao criar as Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), é hoje uma das capitais mais desiguais do país. A resistência das famílias trabalhadoras nos territórios, no entanto, freia o avanço da especulação imobiliária. Caso contrário, a cidade seria apenas dos ricos, alerta a vereadora.

A Prefeitura do Recife anuncia grandes projetos urbanos, programas de requalificação e intervenções vendidas como modernização. Mas modernizar para quem? Quem poderá permanecer e viver bem na cidade?, questiona.
ProMorar: maior empréstimo da história
O programa ProMorar, apresentado como resposta urbana aos impactos das chuvas e à vulnerabilidade socioambiental, mobiliza o maior empréstimo da história do Recife: R$ 1,5 bilhão junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), com previsão de pagamento em cerca de 20 anos. A vereadora defende que a dimensão do investimento exige debate público, transparência e participação social.

Após a tragédia das chuvas de 2022, a urgência de políticas de prevenção e enfrentamento à crise climática ficou evidente. No entanto, o enfrentamento às enchentes e deslizamentos não pode aprofundar a desigualdade territorial, ressalta.
O ProMorar, apesar do nome, não é um programa de moradia popular. Para muitas comunidades, ele se materializa como ameaça à habitação, insegurança territorial e incerteza de futuro. Sete comunidades da zona sul do Recife estão sob ameaça de despejo associada à intervenção: Bom Jesus, Pocotó, Fazendinha, Beco da Celpe, Curral, Joca e Beira do Rio.

Morar no Centro e o Distrito Guararapes
A defesa da moradia em áreas centrais é fruto de décadas de luta dos movimentos sociais. Em 2018, o MTST Pernambuco realizou a Ocupação Marielle Franco, em um prédio abandonado na Praça do Diário, para denunciar a contradição entre imóveis vazios e falta de moradia. A vereadora defende a reocupação da região central, o enfrentamento aos imóveis subutilizados e a ampliação de políticas de locação social.
Ela questiona: quem realmente conseguirá morar no centro? Quando a política pública depende de parcerias público-privadas e dos preços de mercado, a área se valoriza e parte da população é empurrada para fora. O centro pode voltar a ser usado, mas não necessariamente democratizado.
O Distrito Guararapes também precisa ser debatido como parte de um modelo de cidade que garanta permanência e reduza desigualdades territoriais, e não como mais um projeto orientado pela especulação imobiliária.
Moradia e população em situação de rua
A vereadora destaca que moradia e população em situação de rua não são debates separados, mas parte de um regime de proteção social comum. Ela conclui que nenhuma conquista urbana foi dada de presente: a cidade foi disputada nas ruas, nos territórios e pela organização coletiva.
Com informações de Brasil de Fato — leia a matéria original.