Em artigo publicado na Gazeta do Povo, o historiador Marcos Paulo Candeloro retoma uma imagem do professor Nicolau Sevcenko (falecido em 2014) para criticar o que chama de “arrogância festiva” da modernidade. Segundo Candeloro, que acompanhou o curso de Sevcenko na USP, o historiador defendia que a história deixou de ser uma estrada para se tornar uma montanha-russa a partir da Revolução Industrial.

Na modernidade clássica, ainda existia a ilusão de uma trajetória: o homem iluminista acreditava caminhar rumo ao aperfeiçoamento guiado pela razão, pela ciência e pela técnica. Havia um eixo, um sentido, um horizonte contemplável. Sevcenko, porém, teria percebido que esse horizonte foi substituído por um trilho fechado, no qual o passageiro descobre tarde demais a existência de um loop. Nesse ponto, a gravidade desaparece, o corpo perde a referência e o homem contemporâneo já não distingue finalidade de instrumento, liberdade de impulso ou progresso de dissolução.

Para Candeloro, a ironia é que o projeto iluminista prometia soberania racional ao indivíduo, mas produziu uma criatura que apenas reage. A técnica avança mais rápido que a cultura consegue digerir; a informação circula mais rápido que a consciência absorve; algoritmos, biotecnologia e inteligência artificial multiplicam efeitos que ninguém compreende, embora todos sejam obrigados a consumi-los. “O sujeito moderno não conduz nada, apenas suporta o trajeto, e ainda agradece pela adrenalina”, escreve.

O autor aponta uma coexistência entre euforia superficial e exaustão espiritual, chamando o fenômeno de “passageirismo civilizacional”: a máquina acelera enquanto a consciência permanece imóvel, e o homem, fascinado com a própria velocidade, esquece que o trilho jamais foi desenhado para parar. “A modernidade nos prometeu o trono de Deus e nos entregou o assento do parque de diversões”, conclui.

Marcos Paulo Candeloro é graduado em História pela USP, pós-graduado em Ciências Políticas pela Columbia University (EUA) e especialista em Gestão Pública Inovativa pela UFSCAR.

Com informações de Gazeta do Povo.