Uma delegação de executivos brasileiros esteve em Caracas, na Venezuela, ao longo desta semana, para apresentar produtos e serviços e prospectar oportunidades de negócio em um contexto de recuperação econômica no país vizinho. A missão, liderada pelo embaixador Alex Giacomelli, da Secretaria de Promoção Comercial, Ciência, Tecnologia, Inovação e Cultura (SECIC) do Itamaraty, realizou cerca de 90 reuniões com altos funcionários do governo venezuelano.

Entre os encontros, Giacomelli tratou com o vice-presidente para a área econômica, Calixto Ortega; o ministro do Comércio Exterior, Johann Álvares; a ministra de Hidrocarbonetos, Paula Henao; e o chanceler Ivan Gil. A iniciativa, coordenada pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil, buscou identificar oportunidades em setores como petróleo e gás, exportação de proteína animal, automotivo, farmacêutico, plásticos, maquinário, carnes, aves, arroz e pulses.

Oportunidades no setor de petróleo e gás

Um dos exemplos de oportunidades identificadas pelas empresas brasileiras, segundo o Itamaraty, é a possibilidade de instalar geradores termoelétricos em pontos específicos da Venezuela. A medida permitiria que o governo e empresas instaladas no país explorassem petróleo nesses locais, aproveitando a demanda por energia para viabilizar a produção.

A empreitada contou com a participação de entidades representativas de 10 setores, como a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA), a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC), a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o Instituto Nacional do Plástico (INP), o Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), o Instituto Brasileiro de Farmácia (IBRAFE), a Associação Brasileira da Indústria do Arroz (ABIARROZ), o Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP) e a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ).

Setor de proteína animal busca retomar vendas

Estevão Carvalho, representante da ABPA, afirmou que as reuniões ajudaram a avançar conversas já em andamento com empresas venezuelanas. “O nosso setor, tanto de aves quanto suínas, é muito internacionalizado. Exportamos para mais de 150 países. As empresas estão sempre em contato com clientes e potenciais clientes. Essa foi uma missão prospectiva para aproximar, trazer entendimento sobre o que a Venezuela está passando”, disse.

Carvalho lembrou que o Brasil já exportou para a Venezuela carne de frango, suína e material genético avícola, essencial para a produção local, mas que o comércio sofreu uma queda significativa nos últimos anos. A visita ocorre em meio a esforços do governo Lula para aprofundar os laços econômicos bilaterais, após anos de estagnação comercial venezuelana.

Comércio bilateral em queda, mas com expectativas de retomada

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços do Brasil mostram que o comércio bilateral totalizou cerca de US$ 837 milhões em 2024, valor muito inferior ao pico de US$ 5,1 bilhões registrado em 2008. Apesar disso, o Itamaraty pretende organizar novas missões semelhantes no futuro, voltadas para empresas com interesse direto no mercado venezuelano.

Patrícia Gomes, diretora de Comércio Exterior da ABIMAQ, explicou que a missão à Venezuela faz parte de um movimento inicial de aproximação para entender como o país vem reorganizando sua estrutura produtiva, especialmente nos setores industrial, agrícola e de petróleo. “A Venezuela já foi um mercado relevante para o setor. Em 2012, os embarques somaram US$ 831,4 milhões. Em 2025, esse volume caiu para US$ 64,1 milhões”, comparou.

“Essa aproximação acontece para que, quando houver uma eventual retomada, os setores estejam preparados. O objetivo agora é ter uma leitura mais próxima do que está acontecendo no país. Ainda há muitos pontos indefinidos para a retomada de comércio, mas o governo brasileiro achou bom que acompanhássemos (essa agenda) para estarmos preparados para uma eventual retomada”, afirmou Patrícia.

Segundo ela, desde o ano passado a ABIMAQ vem retomando contato com o setor privado venezuelano, que demanda principalmente equipamentos agrícolas, como tratores e colheitadeiras. A estratégia é manter presença e interlocução para que o Brasil seja lembrado quando o comércio bilateral se normalizar.

Carne bovina: oportunidade para um novo capítulo

Julio Ramos, diretor de Assuntos Estratégicos da ABIEC, destacou a importância do mercado venezuelano para a carne bovina brasileira. “A Venezuela já foi um importante parceiro comercial do Brasil. Por isso, vemos este momento como uma oportunidade para um novo começo — um novo capítulo nas relações entre Brasil e Venezuela, particularmente no que diz respeito à carne bovina brasileira”, declarou.