Em abril, a missão Artemis II, da Nasa, realizou o primeiro voo tripulado à Lua em mais de cinco décadas. O presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), Marco Antonio Chamon, lembrou da pergunta feita ao alpinista George Mallory em 1923 — “Por que você resolveu escalar o Monte Everest?” — e da resposta: “Porque está lá”. Mallory morreu em 1924 tentando o pico. A questão agora é se vale a pena gastar dezenas de bilhões de dólares apenas porque a Lua “está lá”.

O Programa Artemis começou em 2012 e já consumiu mais de US$ 90 bilhões. Cada dia de lançamento de foguete custa cerca de US$ 4 bilhões. A próxima missão, Artemis III, está prevista para 2027.

O custo e o retorno do Programa Artemis

Para Chamon, “por trás desse desafio tecnológico está uma injeção muito grande de recursos no sistema industrial”. Ele destaca a participação de diversos países, incluindo o Brasil como signatário do projeto, além da Agência Espacial Europeia (ESA) e do Japão.

O orçamento da Nasa para 2026 é de US$ 24 bilhões. Segundo relatórios do governo dos EUA, a agência gera US$ 70 bilhões anuais em produção nacional — um retorno de US$ 3 para cada US$ 1 investido. Desde 1976, inovações da Nasa resultaram em mais de 2 mil produtos comerciais, como:

  • GPS
  • Filtros de água
  • Lentes fotográficas de smartphones
  • Robôs de fábrica
  • Impressoras 3D de alimentos
  • Equipamentos de combate a incêndio
  • Aspiradores de pó portáteis
  • Espuma viscoelástica (travesseiros “da Nasa”)

O engenheiro Lucas Fonseca, que trabalhou na ESA e hoje lidera a missão privada brasileira Garatéa-L, afirma: “Tem motivos econômicos que se pagam, outros investimentos que você vê em outras áreas não dão o mesmo retorno a longo prazo”.

Corrida espacial entre EUA e China

Um dos principais motivos para o retorno à Lua é geopolítico. Estados Unidos e China travam uma nova corrida espacial, com o objetivo de enviar naves tripuladas ao solo lunar antes de 2030 e, na década seguinte, levar humanos a Marte. A disputa por hegemonia acelerou os planos.

Exploração de recursos lunares

A Lua possui riquezas cobiçadas. O foco atual é o Hélio-3, isótopo raro na Terra e abundante no solo lunar, considerado combustível ideal para fusão nuclear limpa. Além disso, a superfície contém minérios valiosos. “Cada cratera é uma reserva de material metálico, porque algum asteroide caiu ali”, explica Fonseca. Há também a perspectiva de usar a Lua como entreposto para exploração do Sistema Solar.

O potencial comercial da Lua

O cientista Nilton Rennó, professor da Universidade de Michigan e ex-integrante da missão Phoenix da Nasa (que descobriu água em Marte), ressalta que a Lua serve como local para desenvolver tecnologias para Marte. Ele aponta o interesse do setor privado: “A Blue Origin, de Jeff Bezos, aposta em colocar lá servidores de dados, que demandam muita energia na Terra e causam impactos ambientais e sociais”. Energia solar e Hélio-3 da Lua abasteceriam esses servidores sem demandar recursos terrestres. Rennó afirma que a Nasa planeja uma estação lunar permanente, com potencial comercial em mineração, mercado de dados digitais e painéis solares mais eficientes que os da Terra.

Por que não gastar em causas terrestres?

É natural questionar por que não investir os bilhões em urgências humanitárias. Comparativamente, o orçamento da Defesa dos EUA é de US$ 900 bilhões, 37 vezes o da Nasa. No Brasil, a ciência espacial custa R$ 139 milhões por ano, ante R$ 540 bilhões da Educação, R$ 260 bilhões da Saúde e R$ 142 bilhões da Defesa. Para Fonseca, “com todo o dinheiro da ciência espacial, não se resolveria uma grande mazela imediata da humanidade nem por um ou dois dias”. Porém, ele acrescenta que as descobertas da exploração espacial podem gerar soluções para esses problemas.

Inovações inesperadas

A indústria moderna de telecomunicações surgiu a partir do Sputnik 1. Na medicina, contribuições da Nasa incluem detecção de tumores e terapias de estímulos musculares. O caminho para tais invenções nem sempre é claro. O educador Abraham Flexner escreveu sobre Michael Faraday: “Em nenhum período de sua carreira ele se interessou por utilidade. Ele estava absorto em desvendar os enigmas do Universo”.

A ciência avança lentamente, e a curiosidade de gerações de cientistas pode levar a respostas para os problemas atuais. Como conclui o artigo original: “A montanha não virá até nós. Cabe a nós escalarmos”.