Um surto de ebola na República Democrática do Congo, o terceiro maior já registrado, tem como epicentro a cidade mineradora de Mongbwalu, na província de Ituri. Especialistas apontam que a economia do ouro, que atrai trabalhadores de diversas regiões, está contribuindo para a disseminação do vírus.
O surto, causado pela cepa Bundibugyo — menos conhecida e sem tratamento específico —, começou em fevereiro, mas só foi detectado pelas autoridades em 15 de maio. Quando a crise foi declarada, o vírus já se espalhava há semanas entre garimpeiros que trabalham em condições precárias e comercializam ouro que frequentemente cruza fronteiras.
Mumbere Saidi, de 27 anos, fugiu para Mongbwalu após um ataque do grupo afiliado ao Estado Islâmico em sua fazenda. Ele trabalhava como garimpeiro e enviava dinheiro aos pais. Na semana passada, morreu de ebola. Seu irmão, Kondu Ganda, também garimpeiro, relatou que Saidi foi levado a seis clínicas diferentes antes de falecer. Vizinhos disseram que cinco pessoas já haviam morrido na mesma rua.
Autoridades locais estimam que mais de 80 pessoas morreram de ebola nas semanas anteriores à detecção do surto. Jean-Pierre Bikilisende, ex-prefeito da cidade, afirmou: “Tememos que estejamos apenas no início de nossa desgraça”.
Mongbwalu, situada no cinturão de ouro de Kilo-Moto, tem histórico de exploração e conflitos. Colonizadores belgas abriram as primeiras minas há mais de um século, usando trabalho forçado. Entre 2002 e 2003, pelo menos 2.000 civis foram mortos na região, segundo a Human Rights Watch. Atualmente, a cidade está pacífica, mas a mineração é feita por pequenos garimpeiros, muitos vindos de Kivu do Norte, área que sofreu um surto de ebola entre 2018 e 2020.
Garimpeiros entrevistados pelo The New York Times demonstraram pouca preocupação com o ebola. Bienvenue Bironyi, de Kivu do Norte, disse que ouviu falar das mortes, mas não sabe que precauções tomar. “Ainda estamos trabalhando da manhã à noite. Nada mudou”, afirmou. Gedeon Abimana, que ganha de US$ 136 a US$ 272 por semana, lida com mercúrio com as mãos nuas. “O que podemos fazer? Não temos escolha senão trabalhar”, declarou.
A desconfiança em relação ao vírus é comum. Muitos garimpeiros acreditam que o ebola não existe ou é um esquema para ganhar dinheiro. Shadrack Toko, funcionário de uma área de garimpo, relatou que circulam histórias de que pacientes são injetados com veneno ou têm órgãos genitais cortados. Deborah Singo, líder comunitária e garimpeira, disse que precisa “ver primeiro” para acreditar na doença.
Com informações de Folha — Equilíbrio e Saúde.