Pela primeira vez, pesquisadores identificaram microplásticos em girinos e nas poças d'água onde se desenvolvem na Amazônia. O estudo, conduzido pela ecologista Fabrielle Barbosa de Araújo, da Universidade Federal do Pará (UFPA), e publicado recentemente, reforça as evidências de contaminação por esses poluentes na floresta tropical. Trabalhos anteriores já haviam detectado microplásticos em peixes, invertebrados, solo e água na região.

Primeira detecção na Amazônia

Os pesquisadores coletaram amostras de água de cinco poças temporárias no Parque Ecológico do Gunma, na Região Metropolitana de Belém. Esses corpos d'água, formados pelo acúmulo de chuva, são essenciais para a reprodução e o desenvolvimento de girinos de diversas espécies de anfíbios na Amazônia. Em cada poça, foram capturados cem girinos da perereca-de-banheiro (Scinax x-signatus), espécie comum tanto em florestas quanto em áreas urbanas, com ampla distribuição na América do Sul.

Microplásticos foram encontrados em todas as cinco poças e em todos os 100 girinos analisados por poça. A maioria das partículas era composta por fibras plásticas, como poliéster, principalmente nas cores transparente, azul e preta. Estudos anteriores também encontraram fibras semelhantes em diferentes partes da Amazônia, possivelmente oriundas de esgoto sanitário e atividades pesqueiras.

Contaminação generalizada em habitat preservado

Em entrevista por e-mail, Araújo afirmou que não ficou surpresa com a presença dos microplásticos, mas sim com a quantidade. “O que realmente chamou nossa atenção foi a grande quantidade encontrada, principalmente porque esta é uma área com baixa densidade populacional humana e considerada relativamente bem preservada”, disse. A descoberta acende um alerta, uma vez que a contaminação pode atingir até mesmo locais com pouca interferência humana direta.

Impactos potenciais sobre anfíbios

Araújo destacou sua preocupação com os efeitos nos girinos. “A contaminação pode afetar negativamente a saúde dos anfíbios, causando danos genéticos e morfológicos, como alterações nas células sanguíneas e no próprio DNA”, explicou. Segundo ela, as partículas também podem se acumular nos tecidos e provocar alterações fisiológicas. Os autores do estudo observam que os girinos se alimentam de algas, fungos e ovos presentes na água, o que ajuda a explicar a ingestão dos microplásticos.

“As pesquisas sobre a presença de microplásticos na Amazônia se intensificaram nos últimos anos, e o nosso objetivo é continuar monitorando essa contaminação, principalmente em girinos de anuros, a fim de entender melhor como esse poluente está afetando a biodiversidade da nossa região”, acrescentou Araújo.

Importância da pesquisa para conservação

Jess Hua, pesquisadora de ecologia de água doce e de anfíbios que não participou do estudo, comentou o significado da descoberta: “Este estudo apresenta as primeiras evidências de que microplásticos estão alcançando girinos na Amazônia, uma região sobre a qual temos muito poucos dados”. Hua ressaltou que “os anfíbios representam o grupo de vertebrados mais ameaçado e, para sua conservação, é fundamental entender as ameaças potenciais, incluindo os microplásticos”. Ela também lembrou que a poluição por microplásticos em ecossistemas de água doce ainda é muito menos estudada do que em ambientes marinhos.