O mico-leão-dourado, espécie ameaçada de extinção e símbolo da conservação no Brasil, voltou a ser alvo de traficantes internacionais de animais silvestres. Apreensões realizadas no Togo, no Suriname e na Amazônia revelam redes criminosas sofisticadas que controlam rotas internacionais, por vezes utilizando documentos falsificados.

Por trás de uma dessas organizações está um homem que portava vários passaportes falsos e submeteu 20 micos-leões-dourados a uma travessia de 40 dias pelo Oceano Atlântico até a África. Alguns animais são contrabandeados; traficantes também exploram brechas nas regras do comércio internacional para vender animais capturados na natureza como se fossem criados em cativeiro.

Os macacos são transportados pela América Latina e pela África, com fortes indícios de que tenham como destino final o mercado asiático ilegal. Colecionadores estão dispostos a pagar até US$ 100 mil por esse animal. Alguns dos micos morrem antes de chegar ao destino; os que sobrevivem podem terminar a viagem desnutridos, doentes e, por vezes, mutilados.

Preocupação de conservacionistas

“É assustador, no sentido de que [o tráfico] é uma ameaça que nós considerávamos relativamente sob controle”, afirmou Luis Paulo Ferraz, secretário-executivo da Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD), que lidera um esforço internacional para preservar a espécie desde a década de 1990. Nos últimos anos, sua equipe tem se deparado cada vez mais com pessoas que se aventuram nas florestas do Rio de Janeiro para capturar esses animais.

O mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia), estampado na cédula de 20 reais, entrou no radar da Polícia Federal em 2023, depois que sete desses primatas e 29 araras-azuis-de-lear (Anodorhynchus leari), outra espécie nativa do Brasil, foram apreendidos em um cativeiro no vizinho Suriname.

Apreensões em três países

Em fevereiro de 2024, autoridades do Togo encontraram 20 micos-leões-dourados e 12 araras-azuis-de-lear a bordo de um veleiro que estragou enquanto navegava pela costa da África Ocidental. Alguns meses depois, um motorista que trafegava pela BR-364, em Rondônia, foi parado pela Polícia Rodoviária Federal transportando oito micos-leões-dourados e três saguis-de-tufos-pretos em gaiolas no banco traseiro.

Em depoimento, o motorista afirmou que havia recebido 25 mil reais para buscar os animais em Belo Horizonte, Minas Gerais, e transportá-los até a cidade de Pacaraima, na fronteira com a Venezuela. Ele disse ainda que, recentemente, havia levado outros seis micos-leões-dourados pela mesma rota. A Polícia Federal concluiu que o caso era mais um elo da intrincada rede global de tráfico de animais silvestres.

População ameaçada

Em 2023, a população de micos-leões-dourados era estimada em cerca de 4.800 indivíduos. A espécie está ameaçada de extinção, possui habitat restrito e encontra-se confinada a algumas áreas preservadas nas planícies costeiras da bacia do Rio São João, na Mata Atlântica fluminense.

Cobiçados por sua coloração marcante, esses primatas vêm sendo retirados da natureza desde o século 19, quando eram exibidos como animais de estimação exóticos pela aristocracia europeia. Essas capturas, combinadas com a destruição progressiva da Mata Atlântica, quase levaram a espécie à extinção. Nas décadas de 1960 e 1970, restavam menos de 200 indivíduos na natureza.

Rota do veleiro Bella Vita

Era um sábado comum em Lomé, capital do Togo, quando moradores de uma comunidade costeira perceberam uma movimentação estranha no mar. Dois homens haviam abandonado um veleiro e seguiam em direção à costa em um bote salva-vidas, carregando gaiolas com pequenos primatas dourados. Alertada pelos moradores, a guarda costeira do Togo foi até a praia e prendeu o grupo que permanecia no veleiro, colocando fim a uma viagem de 40 dias que havia começado do outro lado do Atlântico, em Salvador, na Bahia.

A bordo da embarcação, as autoridades encontraram 12 araras-azuis-de-lear. A tripulação do veleiro Bella Vita ilustra o caráter multinacional da empreitada. De acordo com informações da Polícia Federal, Julio Ricardo Gonzalez Polonioli, proprietário e capitão do veleiro, é um uruguaio residente em Salvador. Sob seu comando estava o brasileiro Silvier de Almeida da Silva, velejador e proprietário de uma empresa de manutenção e reparo de embarcações em Ubatuba, litoral de São Paulo. A tripulação também incluía o surinamês Iwan Brigadirie, responsável por cuidar dos animais a bordo.

Os ocupantes da embarcação foram presos. Enquanto isso, um homem de nacionalidade incerta, identificado pela Polícia Federal como o líder do grupo, Alexander Levin, tentava cruzar a fronteira com Gana levando consigo os micos-leões-dourados. Ele foi detido antes de alcançar o país vizinho, e 17 animais foram recuperados. Outros três macacos morreram durante a viagem.

Os animais que sobreviveram estavam em estado deplorável: extremamente magros, encharcados pela água do mar e com grandes áreas do corpo sem pelos. De acordo com o Ibama, eles também estavam gripados e sofriam de sarna. Os animais foram resgatados pelo então embaixador do Brasil no Togo, Nei Bitencourt, que faleceu em 2024. Ele os abrigou em um hospital improvisado montado em sua própria casa. Em fevereiro de 2024, os micos-leões-dourados e as araras-azuis-de-lear foram trazidos de volta ao Brasil para passar por um processo de recuperação.

O líder Alexander Levin

Levin, descrito pela Polícia Federal como o indivíduo “responsável pela aquisição e posterior comercialização dos animais traficados”, acabou fugindo das autoridades togolesas, em circunstâncias não esclarecidas. Quase tudo sobre ele está envolto em mistério, começando por sua nacionalidade. Acredita-se que Levin tenha 59 anos, mas sua origem é muito menos clara. Quando foi detido no Togo, ele portava cinco passaportes falsificados: um de Israel, um do Cazaquistão, um da Rússia e dois de Belarus.

Em 2014, ele foi condenado a 15 meses de prisão no Canadá por sequestrar a filha de 2 anos, fruto da relação com uma brasileira. Levin raptou a criança durante uma viagem da família à Ucrânia e embarcou com ela em um voo para as Filipinas, onde a deixou aos cuidados de uma pessoa desconhecida. Após quase quatro meses, a menina foi resgatada e devolvida à mãe no Brasil. Em 2017, ele foi detido com um passaporte israelense falsificado ao tentar entrar nos Estados Unidos vindo do México.

O paradeiro atual de Levin é desconhecido, mas o caso do Togo levou a Polícia Federal a deflagrar uma operação que resultou na prisão de dez pessoas em 12 de março de 2026. A maioria delas já possuía antecedentes por tráfico de animais silvestres e atuava na Bahia, próximo à área habitada pelas araras-azuis-de-lear. Algumas dessas pessoas foram posteriormente colocadas em liberdade, mas continuam sob investigação.

Brechas na Cites

Por ser uma espécie ameaçada de extinção, o mico-leão-dourado está sujeito às regras mais rigorosas da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (Cites). Os animais incluídos na categoria de maior proteção, o Anexo I, não podem ser exportados para fins comerciais, mas apenas para objetivos científicos e de conservação. O mico-leão-dourado está listado nesse anexo.

A Cites, no entanto, prevê exceções para criadouros comerciais registrados e para animais nascidos em instituições não comerciais, como zoológicos. Essa última exceção é particularmente problemática, afirma Taylor Tench, analista-sênior de políticas para a vida silvestre da Environmental Investigation Agency nos Estados Unidos (EIA US). “Ela é confusa — em grande medida, fica sujeita à interpretação do país exportador”, disse Tench.

As brechas da convenção criam oportunidades para os traficantes, que comercializam animais retirados ilegalmente da natureza como se tivessem sido criados em cativeiro. Segundo Juliana Machado Ferreira, diretora-executiva da Freeland Brasil, muitos desses esquemas envolvem criadores registrados que utilizam documentos legítimos para “lavar” e traficar animais obtidos ilegalmente.

Alguns países são especialmente atraentes para os traficantes como centros de lavagem e redistribuição de animais, seja pela fragilidade das leis ambientais ou pela facilidade de corromper agentes públicos. Na América do Sul, Guiana e Suriname funcionam como pontos de saída para animais capturados no Brasil, segundo um relatório da USAID, da IUCN e da organização de monitoramento do comércio de fauna Traffic.

Com informações de Mongabay Brasil.