A crescente demanda de traficantes internacionais pelo mico-leão-dourado ameaça um dos animais mais emblemáticos do Brasil, que já esteve à beira da extinção. Apreensões realizadas no Togo, no Suriname e na Amazônia revelam redes criminosas sofisticadas, que controlam rotas globais e utilizam documentos falsificados para comercializar o primata.
De acordo com a Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD), a situação atual é preocupante. “É assustador, no sentido de que [o tráfico] é uma ameaça que nós considerávamos relativamente sob controle”, afirmou Luis Paulo Ferraz, secretário-executivo da entidade, que lidera esforços de conservação desde a década de 1990. A equipe de campo da AMLD tem se deparado cada vez mais com pessoas que tentam capturar os animais nas florestas do Rio de Janeiro.

Apreensões em três países
O mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia), estampado na cédula de R$ 20, entrou no radar da Polícia Federal em 2023, quando sete primatas e 29 araras-azuis-de-lear foram encontrados em um cativeiro no Suriname. Em fevereiro de 2024, autoridades do Togo apreenderam 20 micos-leões-dourados e 12 araras a bordo de um veleiro com problemas mecânicos na costa da África Ocidental. Poucos meses depois, em Rondônia, a Polícia Rodoviária Federal flagrou um motorista transportando oito micos-leões-dourados e três saguis-de-tufos-pretos em gaiolas no banco traseiro de um carro na BR-364.
O motorista afirmou ter recebido R$ 25 mil para buscar os animais em Belo Horizonte e levá-los até Pacaraima (RR), na fronteira com a Venezuela. Em depoimento, disse que já havia feito o mesmo trajeto com outros seis micos recentemente. O delegado Raphael Gonçalves da Silva, da Polícia Federal, destacou que “Pacaraima é um local conhecido pelo local de saída do país de animais silvestres, rota do tráfico internacional”.

A viagem do veleiro Bella Vita
Em Lomé, capital do Togo, moradores viram dois homens abandonarem um veleiro e seguirem para a praia em um bote salva-vidas com gaiolas contendo primatas dourados. Um deles colocou os animais em um táxi e fugiu de moto-táxi. A guarda costeira prendeu os que ficaram no veleiro, encerrando uma travessia de 40 dias que começou em Salvador (BA). A bordo estavam 12 araras-azuis-de-lear.
O veleiro Bella Vita era comandado pelo uruguaio Julio Ricardo Gonzalez Polonioli, com o brasileiro Silvier de Almeida da Silva como tripulante e o surinamês Iwan Brigadirie como tratador. O líder do grupo, Alexander Levin, tentou cruzar a fronteira com Gana levando os micos, mas foi detido. 17 animais foram recuperados; três morreram durante a viagem. Os sobreviventes estavam desnutridos, com sarna e gripados, segundo o Ibama. Foram abrigados na residência do então embaixador brasileiro no Togo, Nei Bitencourt, e trazidos de volta ao Brasil em fevereiro de 2024.

O advogado de Silvier de Almeida da Silva, Telêmaco Marrace, afirmou que seu cliente “não sabia que estava envolvido em qualquer atividade ilegal” e que lhe foram apresentadas documentações supostamente falsas. Silva passou nove meses preso no Togo e atualmente responde a processo criminal no Brasil.
O líder Alexander Levin
Alexander Levin, descrito pela Polícia Federal como “responsável pela aquisição e posterior comercialização dos animais traficados”, fugiu das autoridades togolesas em circunstâncias não esclarecidas. Sua nacionalidade é incerta: portava cinco passaportes falsificados (Israel, Cazaquistão, Rússia e dois de Belarus). Documentos canadenses indicam que nasceu na Ucrânia e emigrou para o Canadá em 1982; autoridades dos EUA o identificam como cidadão canadense.
Em 2014, Levin foi condenado a 15 meses de prisão no Canadá por sequestrar a filha de 2 anos, fruto de relacionamento com uma brasileira. Ele raptou a criança durante uma viagem à Ucrânia e a deixou nas Filipinas, sendo resgatada após quatro meses. Já acumulava condenações por furto, uso de documentos falsos e posse de arma. Em 2017, foi detido nos EUA com passaporte israelense falso. Seu paradeiro atual é desconhecido.
Brechas na Cites
O mico-leão-dourado está listado no Anexo I da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (Cites), que proíbe a exportação comercial. Porém, exceções para criadouros registrados e para animais nascidos em cativeiro em instituições não comerciais criam brechas. Taylor Tench, analista-sênior da Environmental Investigation Agency (EIA), afirma que a regra “é confusa — em grande medida, fica sujeita à interpretação do país exportador”.
Segundo Juliana Machado Ferreira, diretora-executiva da Freeland Brasil, traficantes usam documentos legítimos para “lavar” animais capturados na natureza, ou exportam espécies ameaçadas com licenças de outras menos protegidas. “E aí ninguém olha quais animais estão ali, ou você paga [o fiscal] para ele não olhar”, disse.
Rotas na América do Sul
Guiana e Suriname servem como pontos de saída para animais traficados do Brasil, segundo relatório da USAID, IUCN e Traffic. Os contrabandistas cruzam fronteiras na Amazônia por embarcações e pequenos aviões, compartilhando rotas com traficantes de drogas e ouro. No Suriname, em 2023, sete micos-leões-dourados e araras foram resgatados em Paramaribo. Meses depois, um casal de micos foi vendido por indígenas à beira de uma estrada; no local, autoridades encontraram pistas de pouso clandestinas.
Destino final: Ásia
Os animais seguem para colecionadores na Ásia, onde um mico-leão-dourado pode valer até US$ 100 mil. A Tailândia tornou-se centro de distribuição, especialmente para a Índia. Levantamento da Traffic registrou 7.272 animais apreendidos em bagagens de voos entre Tailândia e Índia entre janeiro de 2022 e maio de 2025. A Freeland identificou 11 apreensões com mais de 600 animais em voos Bangkok-Mumbai entre maio e outubro de 2025.
O primatólogo Dilip Chetry, da ONG Aaranyak, afirma que o tráfico aumentou na Índia nos últimos anos, com primatas representando a maior parte das apreensões no nordeste do país.
Investigação liga tráfico a megazoológico indiano
Uma operação da Polícia Federal indica que o interesse repentino pelo mico-leão-dourado pode estar ligado ao megazoológico Vantara, fundado pelo bilionário Anant Ambani em Jamnagar, Índia, inaugurado em março de 2025. Em 1º de maio de 2026, agentes apreenderam aparelhos do especialista em aves Tony Silva, cidadão norte-americano condenado por tráfico de aves nos EUA, no Aeroporto de Guarulhos (SP). Segundo fonte anônima, Silva atuava como intermediário na compra de animais capturados ilegalmente para o Vantara, incluindo micos-leões-dourados e araras-azuis-de-lear.
O Vantara negou envolvimento. Em nota, afirmou que Silva foi “consultor independente para serviços limitados de assessoria” e que “qualquer sugestão de que o aumento do tráfico de micos-leões-dourados possa estar relacionado à aquisição contínua de animais pelo Vantara é totalmente falsa e desprovida de fundamento”.