Michelle e Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro gravou uma reposta patética após a paulada que sua madrasta lhe deu num vídeo devastador que ela postou em suas redes. “Nada e nem ninguém me aborrece, vamos tratar aqui de coisa boa, de futebol, porque a gente vai conseguir resgatar junto o Brasil, que é projeto de Deus”, disse, com o sorriso mais amarelo que dente de fumante velho.
Michelle Bolsonaro fez muito mais do que lavar roupa suja em público. Ela expôs o ódio e a ambição que movem a família Bolsonaro e sua máquina de moer gente. Prestou um imenso serviço à democracia e ninguém pode negar que foi corajosa, já que está lidando com milicianos.
Jogou a pá de cal na campanha do Zero Um.
Até esta semana, o maior problema de Flávio era o caso “Dark Horse”, que ainda produz desgastes e levanta perguntas sem respostas claras sobre suas pilantrangens com Daniel Vorcaro. Agora surge um adversário ainda mais perigoso: uma crise doméstica transformada em disputa política diante de milhões de espectadores.
Michelle escolheu cuidadosamente as palavras. Disse que foi “humilhada” e “apunhalada”. Que Flávio afirmou que ela “não entendia nada de política”. Contou que ouviu do senador que deveria ficar longe das decisões do partido. Em seguida, revelou que nunca mais o procurou.
Há um detalhe simbólico que talvez diga ainda mais do que as acusações.
Durante todo o pronunciamento, Michelle evita chamar Flávio de “Bolsonaro”. Refere-se a ele apenas como “Flávio”, “meu enteado” ou “o pré-candidato”. Pode parecer pouco, mas essas escolhas não são acidentais. Ela também fez questão de reforçar seu próprio currículo político.
Lembrou que preside nacionalmente o PL Mulher, percorreu os 27 estados, organizou diretórios e ajudou a eleger mais de mil mulheres em 2024. Em outras palavras, respondeu diretamente à acusação de que “chegou ontem” e não entende de política.
Ao fazer isso, Michelle não apenas se defende. Ela se apresenta como alguém que tem legitimidade própria dentro do bolsonarismo, tanto quanto os quatro patetas.
O conflito ainda ganha outra dimensão quando ela acusa os filhos de Jair Bolsonaro de terem atuado de forma coordenada para atacá-la nas redes sociais, junto com blogueiros bandidos. “Os irmãos se uniram, de forma coordenada. Parecia combinado”, afirmou.
Tudo isso nasce de uma divergência aparentemente regional: a tentativa do PL de construir uma aliança com Ciro Gomes no Ceará. Mas o Ceará é apenas um álibi para um antigo acerto de contas.
Michelle deixa claro que considera Ciro um adversário histórico de Jair Bolsonaro e afirma que ele teve papel importante na inelegibilidade do ex-presidente. Ao atacar a aproximação com Ciro e afirmar que Flávio preferiu defender os articuladores dessa estratégia em vez dela, a ex-primeira-dama transforma uma discussão estadual em uma disputa sobre lealdade ao bolsonarismo.
Durante anos, Michelle consolidou uma relação própria com a base conservadora, sobretudo entre mulheres e evangélicos. Seu capital político não depende apenas de Jair Bolsonaro. Ela construiu uma imagem de fidelidade absoluta ao ex-presidente e de defesa incondicional dos valores do bolsonarismo.
O depoimento criou uma fissura dentro da seita. Flávio surge como um moleque mimado, mal-educado, grosseiro — especialmente com uma mulher.
A ex-primeira-dama afirmou que Flávio frequenta sua casa semanalmente e que, se realmente quisesse conversar, teria resolvido o problema há muito tempo. Ela também fez questão de negar que esteja condicionando apoio à campanha a um pedido público de desculpas.
O escândalo “Dark Horse” ainda trará muita dor de cabeça para Flávio Bolsonaro, mas Michelle acaba de dar um recado claro aos irmãos: o lugar dela não é na cozinha.
“Hoje é dia de jogo, nada nem ninguém me aborrece”, diz Flávio após vídeo de Michelle https://t.co/RdnvaDEy6V pic.twitter.com/xIIaFMoOzO
— Sam Pancher (@SamPancher) June 24, 2026