Cerca de 16 pessoas foram baleadas por semana no Rio de Janeiro e região metropolitana entre janeiro e maio de 2026, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado. Das 698 vítimas no período, 52% foram atingidas durante operações policiais, totalizando 367 pessoas — 181 mortas e 186 feridas. Ao todo, foram registrados 405 tiroteios nesse contexto.

Dos agentes de segurança, 17 foram baleados em serviço, com três mortes. Esse número corresponde a 35% dos 49 agentes atingidos ao longo de todo o ano de 2026, de acordo com a mesma fonte.

O coordenador regional do Instituto Fogo Cruzado, Carlos Nhanga, afirmou que operações policiais em favelas não deveriam ser usadas como principal estratégia no combate ao crime organizado. "Quando a polícia diz que foi combater roubos, homicídios e exploração infantil, está nomeando crimes que exigem investigação, inteligência e perícia — não confronto armado", declarou. Nhanga citou a operação Carbono Oculto, contra o PCC, como exemplo de abordagem bem-sucedida. "Uma prisão qualificada, de uma liderança viva, vale mais que dezenas de mortos, pois subsidia investigações que se desdobram", justificou.

Pesquisa revela rejeição a operações

Uma pesquisa com 4.080 moradores de quatro grandes favelas cariocas — Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Maré e Rocinha — identificou que 73% são contra as operações policiais e 92% consideram que elas precisam ser mudadas. O levantamento, divulgado em 20 de maio, mostra que essas áreas concentraram 11% dos tiroteios e 19% dos baleados desde 2017, segundo o Fogo Cruzado.

Relatório da Redes da Maré, organização que coordenou a pesquisa, indica que ocorreram 92 operações policiais na Maré entre 2023 e 2025 — uma média de 30 por ano. Entre os relatos de moradores colhidos em grupos de discussão estão: "Quando começa, ninguém sai. A vida para"; "A cidade continua, mas a favela para"; e "O que mais afeta é não poder sair, trabalhar ou levar o filho à escola".

Plano de redução da letalidade

O estado do Rio de Janeiro já enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um plano de redução da letalidade policial, homologado no âmbito da ADPF das Favelas (ADPF 365). O documento prevê uso de câmeras corporais, protocolo de comunicação com notificação ao Ministério Público, transparência sobre mortes em ações policiais e criação de um grupo de monitoramento sob o Conselho Nacional do Ministério Público (CNPM).

Carlos Nhanga, no entanto, defende que o plano seja implementado com metas concretas. "No papel, o plano dialoga com o que pode ser feito de melhor. Agora, precisa incluir metas de redução para mortes nessas ações. Enquanto o confronto for a resposta automática do Estado, câmera e protocolo viram instrumento de registro de uma tragédia que se repete, não de prevenção", concluiu.

Com informações de Brasil de Fato — leia a matéria original.