O mercado financeiro projeta que o Banco Central reduza a Selic em 0,25 ponto percentual nesta quarta-feira (17), para 14,25% ao ano. No entanto, economistas consultados veem esse movimento como o último de um dos menores ciclos de queda de juros da história, iniciado em março, diante de inflação pressionada, estímulos fiscais e tensões geopolíticas.

Pressões inflacionárias e risco de pausa

Dados do boletim Focus indicam piora nas expectativas de inflação. A projeção para o IPCA em 2027, referência para a política monetária, subiu para 4,10% (contra 4% quatro semanas antes). Para 2028, alcançou 3,68% (ante 3,65%). A estimativa para 2024 saltou de 5,11% para 5,30%, acima do teto da meta (4,5%).

Ana Madeira, economista-chefe do Morgan Stanley para o Brasil, afirma que o BC deve endurecer o tom na comunicação. "Não achamos que o Banco Central quer surpreender o mercado neste momento dando uma pausa imediata. Eles gostam de um pouquinho de previsibilidade", disse. Para ela, o Copom deve sinalizar a possibilidade de reavaliar a política monetária, preparando o terreno para uma pausa em agosto.

Fiscal e atividade econômica

O governo federal anunciou medidas parafiscais e de crédito que somam R$ 215 bilhões, com potencial de impulsionar o PIB em mais de 1 ponto percentual, segundo Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do BC e sócio da Jubarte Capital. "Esse gasto está gerando um impulso na atividade econômica de mais de 1 ponto do PIB. Isso vai na direção oposta ao [trabalho do] Banco Central", afirma. Ele classifica as ações como eleitoreiras e alerta que a inflação é "o pior dos impostos".

Caio Megale, economista-chefe da XP, estima impacto de 1,5 ponto percentual no crescimento anual do PIB. Ele destaca que, além da guerra no Oriente Médio, fatores como custos de insumos tecnológicos e o fenômeno El Niño pressionam a inflação.

Câmbio e juros futuros

A taxa de câmbio também contribui para o cenário desfavorável. No encontro de abril, o BC usou cotação do dólar a R$ 5,00. Para esta reunião, a tendência é de R$ 5,10, a primeira depreciação em relação ao Copom anterior em um ano e meio. Megale aponta que as expectativas de inflação podem reagir negativamente se o BC sinalizar continuidade dos cortes em um ambiente de juros globais mais altos.

Perspectivas para agosto

O mercado está dividido sobre a decisão de agosto, com probabilidades equivalentes entre manter a Selic em 14,25% ou reduzir a 14%. "Dadas as projeções de inflação e o estímulo que o governo colocou na economia, não nos parece que no curto prazo os juros vão abaixo de 14%", conclui Megale.