O mercado financeiro brasileiro está emitindo um sinal claro ao Banco Central: a trajetória de queda dos juros, que parecia certa no início do ano, tornou-se incerta e deve ser mais curta do que o esperado. A mudança de percepção ocorreu em questão de meses, com os investidores precificando juros estáveis por um período prolongado.

Em fevereiro, a projeção do mercado era de que a taxa básica de juros (Selic) encerraria 2026 perto de 12% ao ano. Esse cenário pressupunha inflação em desaceleração, ambiente externo favorável e espaço para o Banco Central iniciar um ciclo de flexibilização monetária. No entanto, essa visão praticamente desapareceu.

Na última sexta-feira, o Tesouro Prefixado com vencimento em 2032 era negociado com taxa próxima de 14,60% ao ano, enquanto o contrato futuro de juros para janeiro de 2027 superava 14,3% ao ano. A remuneração da Selic diária e do CDI está em 14,4% ao ano. Isso significa que o mercado deixou de acreditar nos cortes de juros que antes eram considerados quase consensuais.

A revisão foi intensa e rápida. Em poucos meses, os investidores passaram de uma expectativa de CDI próximo de 12% para uma precificação que sugere juros estáveis por quase seis anos. Quando alguém aceita emprestar dinheiro ao governo por seis anos recebendo praticamente a mesma taxa dos juros atuais, está afirmando que não acredita que o Banco Central conseguirá entregar a trajetória de cortes antes esperada.

Inflação e atividade econômica explicam a mudança

Dois fatores principais explicam essa reversão de expectativas. O primeiro é a inflação. Conflitos geopolíticos recentes elevaram os preços de commodities, especialmente energia. Petróleo mais caro encarece transporte, produção e custos para famílias e empresas, pressionando os índices de preços.

O segundo fator é doméstico. A economia brasileira segue resiliente, com mercado de trabalho aquecido, estímulos ao consumo e incentivos fiscais que mantêm a atividade econômica em ritmo mais forte que o previsto. Economias aquecidas tendem a gerar inflação mais persistente, o que reduz a liberdade dos bancos centrais para cortar juros.

Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, o mercado também passou a debater a possibilidade de novas altas de juros, em vez de cortes, devido à resistência da inflação e à força da atividade econômica.

Para quem esperava financiamentos mais baratos, recuperação da Bolsa, de Fundos Imobiliários ou queda dos juros atrelados ao IPCA, a mensagem do mercado é clara: esses cenários ficaram mais distantes do que pareciam no início do ano.

A rápida mudança de convicções revela como as apostas mais seguras podem se desfazer. Há apenas dois meses, os cortes de juros eram vistos como uma das apostas mais certas para 2026. Hoje, os investidores enxergam um cenário completamente diferente. A viagem para juros mais baixos continua no mapa, mas o mercado já não acredita que será longa nem tranquila.

Com informações de Folha — Mercado.