O mercado de afiliados do varejo tem se consolidado como uma alternativa de renda nas redes sociais, impulsionado pelo uso de ferramentas de inteligência artificial (IA). Nesse modelo, vendedores cadastrados por grandes grupos de varejo divulgam produtos por meio de links exclusivos, recebendo comissões que variam de 3% a 20% do valor de cada venda. Segundo a eMarketer, o sistema de afiliados gera vendas anuais de US$ 18 bilhões no mundo.

Agentes que administram contas sozinhos incorporaram à rotina o uso de IA para gerar imagens de vitrines virtuais e chatbots que automatizam a criação dos links. Qualquer pessoa pode entrar nos programas, mas o faturamento depende do alcance e da capacidade de convencer os consumidores a comprar.

Casos de sucesso e desafios

A estudante Patrícia Novais, 29, formada em gestão de negócios, começou como afiliada em 2021 após ficar desempregada. Hoje, ela fatura em média R$ 4.000 por mês. Patrícia gerencia dez grupos de WhatsApp com cerca de mil participantes cada e dispara sete links promocionais por hora, utilizando ferramentas de automação como o ManyChat. “Ser afiliado não é só compartilhar links. É muito trabalhoso, porque é necessário ter uma estratégia bem feita”, afirma.

A mineira Renara Nogueira, 30, começou como sacoleira e migrou para o modelo de afiliação durante a pandemia. Ela afirma faturar R$ 200 mil em meses movimentados, administrando 250 grupos de WhatsApp e três contas no Instagram que somam mais de 1 milhão de seguidores. Renara emprega 11 pessoas, incluindo designers e especialistas em tráfego pago, e usa IA em todas as etapas da gestão. “No início, eu começava a trabalhar às 6h e só parava depois da meia-noite. Com a automação, o processo se tornou muito mais prático”, diz.

Riscos e orientações

O crescimento do setor impulsionou a criação de cursos e mentorias que prometem ganhos rápidos. A influenciadora Cecília Mauad, 30, afirma que comprou um curso que “não trouxe nada que eu já não soubesse, porque no fim era um curso de vender curso, quase um esquema de pirâmide”. Ela recomenda desconfiar de promessas de trabalho simples ou sem esforço.

A especialista em finanças Carolina Mendes alerta que as redes sociais “romantizam o conceito de empreender”, destacando vantagens e deixando desafios em segundo plano. “Empreender pressupõe inovação e gestão de recursos. O que vemos em grande escala no mercado de afiliados é, muitas vezes, o empreendedorismo por necessidade”, afirma.

Pesquisa da Shopee com seus afiliados no Brasil indica que 40% dos participantes pretendem transformar os ganhos na principal fonte de renda, mas mais da metade afirma que as vendas representam até 20% da renda mensal.

Plataformas como Mercado Livre e Magalu monitoram comportamentos que violem os termos dos programas e mantêm centros de capacitação com orientações sobre boas práticas. Renata Gerez, diretora do Mercado Livre, recomenda evitar atalhos: “O sucesso como afiliado exige dedicação, consistência e manutenção da confiança e autenticidade diante da audiência”.

Especialistas sugerem construir uma comunidade própria e diversificar canais de divulgação. A migração integral para esse tipo de renda exige planejamento e reservas financeiras. “Um negócio digital envolve a construção de uma base de clientes, uma proposta de valor clara e uma estrutura operacional capaz de sobreviver às mudanças de algoritmo”, conclui Carolina Mendes.

Com informações de Folha — Tec.