Henrique Mecking, o Mequinho, maior nome do xadrez brasileiro e ex-terceiro melhor jogador do mundo, trocou os tabuleiros pela teologia e hoje se apresenta como um dos profetas do apocalipse. A trajetória do enxadrista, que inclui uma cura considerada milagrosa e uma frustrada tentativa de se tornar padre, é contada na biografia Entre bispos e reis (Todavia), do jornalista Uirá Machado.
Mequinho descobriu o xadrez na infância, em São Lourenço do Sul (RS), e aos 13 anos já impressionava no Campeonato Brasileiro. Em 1966, tornou-se o mais jovem campeão nacional até então. A fama internacional veio rapidamente: em 1972, tornou-se o primeiro grande mestre internacional brasileiro; no ano seguinte, classificou-se para o Torneio de Candidatos, etapa eliminatória do título mundial. Em 1974, perdeu para o soviético Viktor Korchnoi, mas já ocupava o terceiro lugar no ranking mundial.
Aos 25 anos, no auge da carreira, Mecking foi diagnosticado com miastenia grave, doença autoimune rara que causa fraqueza muscular. Sem diagnóstico preciso no fim dos anos 1970, ele chegou a esperar a morte. Em 28 de maio de 1979, recebeu a visita de Laura Mendes da Silva, a Tia Laura, que rezava por doentes. Após duas horas de oração, Mequinho levantou-se e saiu de casa pela primeira vez em semanas. Passou a se dizer "99% curado" e atribuiu a recuperação a Jesus.
Após a cura, Mecking decidiu se tornar padre. Em 1989, aos 37 anos, ingressou no seminário de Taubaté, onde estudou teologia por quatro anos. No entanto, não foi ordenado. Ele atribuiu a recusa a perseguição e a um suposto alinhamento do instituto à Teologia da Libertação. "Quando Deus quer, Deus dá um jeito. Eu entendi claramente que não era para eu ser padre", disse.
Sem o sacerdócio, Mequinho voltou ao xadrez nos anos 1990, rezando entre os lances. Com o tempo, passou a anunciar o fim dos tempos, inicialmente para 31 de dezembro de 2000, depois para 2004 e 2010. Quando as datas não se confirmavam, dizia que Deus havia concedido mais uma chance à humanidade. Em 2022, em entrevista à Folha de S. Paulo, afirmou ter sido escolhido por Jesus como uma das duas testemunhas do capítulo 11 do Apocalipse. Para ser reconhecido como profeta, falta apenas o aval de um bispo. "Eu vou ser mais conhecido do que na época do xadrez, porque as pessoas têm que se salvar", declarou.
A biografia de Uirá Machado reconstitui a trajetória do enxadrista, mas Mequinho inicialmente não quis o livro. Considerava que sua verdadeira missão — ser reconhecido como profeta — ainda não se consumara. Aos 74 anos, em Taubaté, ele continua jogando xadrez e dedicando o resto do tempo à oração, à espera do bispo que o reconheça.
Com informações de Gazeta do Povo.