A secretária nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos do Ministério da Justiça, Marta Machado, afirmou que a decisão dos Estados Unidos de classificar facções brasileiras como organizações terroristas pode prejudicar o combate ao crime organizado na Amazônia. Em entrevista, ela destacou que a medida é tecnicamente inadequada, pois as facções têm motivação de lucro, não ideológica ou religiosa, e pode fragilizar a cooperação policial internacional.

Segundo Machado, a classificação unilateral dos EUA pode afetar a economia nacional, o sistema financeiro e até a emissão de vistos para cidadãos brasileiros. Ela também apontou que a medida interrompe a cooperação policial com os EUA, especialmente no combate ao tráfico de armas, e pode criar uma "cortina de fumaça" para atrapalhar ações bem-sucedidas, como a operação Carbono Oculto.

Expansão do crime na Amazônia

Machado explicou que a presença do Primeiro Comando da Capital (PCC) e, principalmente, do Comando Vermelho (CV) se expandiu na Amazônia devido à "retirada deliberada da fiscalização ambiental" pelo governo anterior. Atualmente, as facções ocupam 344 municípios da região, utilizando as rotas dos rios para escoar cocaína para o mercado nacional e europeu. A secretária destacou a "convergência criminal", em que tráfico de drogas, desmatamento e garimpo ilegal estão interligados.

Programa Território Seguro Amazônia Soberana

O governo lançou em maio o programa Território Seguro Amazônia Soberana, com orçamento de R$ 209 milhões, que integra ações de prevenção e repressão. O programa tem três eixos: reforço da cooperação policial com inteligência; prevenção ao uso de drogas e aliciamento de jovens, com metodologias adaptadas para comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas; e os Centros de Acesso ao Direito e Inclusão Social (CAIS), que oferecem apoio a usuários de substâncias e alternativas de renda.

Machado ressaltou que a estratégia busca evitar que a polícia atue sozinha: "Quando a polícia faz a operação e depois ela se retira, o Estado precisa entrar de uma maneira qualificada". O programa abrange 42 municípios em sete macroterritórios, selecionados por um índice de vulnerabilidade ao crime organizado desenvolvido com a ONU.

Preocupação com jovens indígenas

A secretária destacou o aliciamento de jovens indígenas pelo tráfico, que são recrutados para transportar drogas em barcos ou pela floresta, muitas vezes pagos em pasta base. O Pronasci Juventude, já em implementação no Amazonas, foca na prevenção ao aliciamento em comunidades indígenas. Machado também mencionou o aumento do uso de crack e cocaína em territórios indígenas, associado à violência doméstica e sexual.

Ela afirmou que a cooperação internacional é essencial, especialmente por meio do Centro de Cooperação Policial Internacional (CCPI) e da Interpol, para fortalecer o policiamento nas fronteiras. Sobre a justificativa dos EUA de que as drogas das facções chegam ao país, Machado contra-argumentou que o principal problema norte-americano é o fentanil, droga sintética com produção local, enquanto o Brasil lida com maconha e cocaína.

Com informações de Agência Pública.