Em depoimentos à Polícia Civil de São Paulo, médicos intensivistas que atenderam a juíza Mariana Francisco Ferreira, de 34 anos, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital e Maternidade Mogi Mater, em Mogi das Cruzes (SP), relataram que recomendaram reiteradamente a realização de uma cirurgia de urgência ao médico responsável pelo procedimento de coleta de óvulos. O caso resultou na morte da magistrada no dia 6 de maio, após complicações decorrentes de uma fertilização in vitro (FIV).
Depoimentos apontam alertas sobre cirurgia
Segundo os depoimentos, Mariana sofreu duas paradas cardiorrespiratórias na madrugada, e a cirurgia só foi realizada 28 horas após a admissão no hospital. A intensivista Dayse Guedes Fernandes, que assumiu o plantão às 19h do dia 4 de maio, informou que enviou mensagens ao médico Maurício Ligabô Júnior com resultados de exames que indicavam queda de hemoglobina e piora da função renal. Ligabô teria respondido que o quadro era de hiperestimulação ovariana, considerando a situação normal.

No dia seguinte, a médica Nadja Roberta Melo Cury assumiu o plantão e encontrou Mariana em estado grave, com palidez, pressão baixa e exames mostrando sangue na cavidade uterina. Segundo o depoimento, ela alertou Ligabô sobre a necessidade urgente de cirurgia, mas ele insistiu no diagnóstico de hiperestimulação. A intervenção cirúrgica só ocorreu às 21h daquele dia, 28 horas após a admissão.
O médico Luís Paulo da Silva, que substituiu Cury, auxiliou em procedimento que indicou sangue no abdômen e convenceu o médico responsável a realizar a cirurgia. Em depoimento, ele afirmou que os profissionais presentes alertaram Ligabô sobre a hipótese de hemorragia interna e a necessidade de intervenção imediata. No momento da cirurgia, havia preocupação com iminência de parada cardiorrespiratória. Após o procedimento, Ligabô informou que foram retirados o ovário e trompas esquerdos, e realizado ooforoplastia no ovário e trompas direitos, com grande quantidade de sangue na cavidade abdominal.
Ao voltar da cirurgia, a paciente chegou à UTI em estado grave, com suspeita de pouco sangue em circulação. Após a segunda parada cardiorrespiratória e 40 minutos de reanimação, foi constatado o óbito. Os depoimentos foram prestados nos dias 25 de maio, 1º e 8 de junho.
Versão do hospital e do médico
O Hospital e Maternidade Mogi Mater declarou, em nota, que Maurício Ligabô era o médico responsável pelo caso, cabendo a ele o acompanhamento do diagnóstico principal, a definição das estratégias terapêuticas, a indicação de procedimentos e a comunicação com a família. O hospital afirmou ainda que a equipe intensivista possui autonomia técnica para conduzir os cuidados intensivos, o que foi feito prontamente.
A defesa de Ligabô, por sua vez, sustentou que, conforme pareceres dos conselhos de medicina, quando o paciente está na UTI, o intensivista é o responsável técnico e tomador de decisões sobre terapias e cirurgias. A nota afirma: "Na realidade, as médicas intensivistas, ao atribuírem a responsabilidade ao doutor Maurício tiveram o claro propósito de isentar o Hospital e a si próprias de eventual falha na tomada de decisões e procedimentos necessários para salvar a vida da paciente. Por outro lado, Maurício tomou todas as medidas que o caso requeria para prestar os devidos socorros à paciente".
Investigação policial
A polícia instaurou inquérito para investigar Ligabô por homicídio culposo (sem intenção de matar). Nos autos, a defesa solicitou o adiamento do depoimento do médico até a juntada do laudo necroscópico, para conhecer a causa exata da morte. Segundo a Secretaria Estadual da Segurança Pública, o caso é investigado pelo 1º DP de Mogi das Cruzes, que prossegue com diligências para esclarecimento dos fatos.
De acordo com o boletim de ocorrência, o procedimento de coleta de óvulos foi realizado na manhã do dia 4 de maio, na clínica Invitro Reprodução Assistida. A mãe da vítima, Marilza Francisco, relatou que, ao chegar em casa, a juíza sentiu dor e retornou à clínica, onde foi constatada hemorragia vaginal e realizada sutura. O médico que a atendeu orientou encaminhamento hospitalar. Ela foi internada na UTI da maternidade e faleceu na manhã do dia 6.
Regras do Cremesp e divisão de responsabilidades
A resolução 170 do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) estabelece que as medidas devem ser discutidas com o médico assistente e que este deve indicar procedimentos, respeitando a opinião do intensivista. Na ausência do assistente, o diretor clínico do hospital deve definir um responsável.
O médico intensivista Vinícius Garcia, não envolvido no caso, explicou que, na admissão em UTI, o intensivista e o assistente são corresponsáveis. Cabe ao intensivista identificar piora clínica, dar suporte e comunicar claramente a necessidade de intervenção cirúrgica ao assistente. Em caso de divergências, o protocolo correto é acionar a diretoria clínica para mediação. Garcia afirmou que casos que resultam em óbito raramente decorrem de uma falha isolada, mas de uma sucessão de falhas, incluindo a falta de processos institucionais de proteção aos pacientes.