A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) anunciou que Matheus Cunha usará a camisa 9 da seleção brasileira na Copa do Mundo. O número, eternizado por Ronaldo Fenômeno, carrega a expectativa de um centroavante clássico, mas o estilo de jogo do atacante do Manchester United é diferente do tradicional.

No Wolverhampton, onde se destacou antes de se transferir ao United, Cunha atuava como ponta-esquerda e depois como meia-atacante por trás de um centroavante no esquema 3-4-2-1. No Manchester United, onde veste a camisa 10, exerce função semelhante. No início da carreira, no Hertha Berlin, foi centroavante, mas nunca no estilo clássico de pivô e infiltração na área. Na temporada 2020/21, marcou sete gols na Bundesliga e deu quatro assistências, com quase dois passes-chave por jogo.

Sua passagem pelo Atlético de Madrid não foi tão bem-sucedida, em parte pela má interpretação de seu papel, assim como ocorreu com João Félix. Ambos são criadores alocados em posições que não favoreciam sua fluidez. Ainda assim, em 2021/22, com apenas oito titularidades em La Liga, Cunha participou de dez gols.

Na Premier League, o desempenho foi expressivo. Em sua primeira temporada completa, marcou 12 gols (contra 9,49 de xG) e deu sete assistências (contra 2,95 de xA), superando as expectativas em quase sete participações em gols. Na temporada 2024/25, atingiu o recorde de gols de um brasileiro na Premier League, com 15 gols (8,63 xG) e seis assistências, além de 13 grandes chances criadas.

Em termos de posicionamento e impacto na criação, Cunha se assemelha mais a Neymar do que a centroavantes tradicionais como Igor Thiago ou João Pedro. É um meia-atacante criador, com boa capacidade de finalização, mas não se encaixa no perfil de camisa 9 clássico.

Função na seleção brasileira

No 4-2-4 implementado por Carlo Ancelotti, Cunha atuava como falso nove, descendo ao meio para ajudar na progressão, enquanto Vinícius Júnior atacava a profundidade. Os pontas eram meias criadores que se aproximavam do centro para gerar tabelas e triangulações. Sem Rodrygo e Estêvão, esse estilo perdeu eficácia.

Ancelotti então voltou ao 4-3-3, usado contra a Croácia, com Cunha como meia (camisa 8) e João Pedro como centroavante. O teste deu certo: o Brasil progrediu melhor pelas laterais, e Cunha foi crucial para dar mais tempo e espaço a Vinícius Júnior, puxando a marcação do meio-espaço esquerdo. Nesse modelo, Cunha infiltra pelo meio-espaço para finalizar ou criar cruzamentos.

A dúvida sobre a escalação do Brasil passa pelo papel do centroavante. Ancelotti indicou que o atacante central será móvel, que baixa para construir, pendula para criar vantagem e ataca a profundidade, mas não será um camisa 9 tradicional. Raphinha foi centroavante titular contra o Panamá, e Neymar foi citado como opção para a posição. Igor Thiago é a alternativa mais tradicional para situações específicas.

Risco de estigma negativo

Cunha pode sofrer o mesmo que Gabriel Jesus na Copa de 2018. Jesus era um camisa 9 móvel e goleador, mas na Rússia atuou como centroavante que defendia pela esquerda no 4-1-4-1 de Tite, o que o afastou do gol. Teve média de dois chutes por jogo e perdeu três grandes chances, sem marcar gols, o que selou seu destino com o público.

Na fase defensiva do 4-4-2, Cunha cobre o lado esquerdo, deixando Vinícius Júnior e Raphinha à frente. Ver um camisa 9 voltando para marcar ao lado do lateral pode gerar frustração no torcedor, repetindo o estigma vivido por Jesus.

Com informações de Trivela.