A escritora e cineasta franco-iraniana Marjane Satrapi morreu em Paris aos 56 anos. Ela foi uma importante cronista das experiências das mulheres sob as restrições políticas e sociais do regime iraniano, sendo uma das poucas artistas a incorporar a história moderna do Irã ao cenário artístico global por meio de uma narrativa pessoal.
Com sua obra autobiográfica Persépolis, Satrapi conquistou atenção internacional. A graphic novel narra a repressão política durante a era do xá Reza Pahlavi (1941-1979) e os primeiros anos da República Islâmica, após a Revolução Iraniana de 1979.
Segundo amigos citados pela imprensa francesa, a morte ocorreu aproximadamente um ano após a morte de seu marido, Matteo Ripa; alguns descreveram sua morte como "por tristeza".
Em mensagem divulgada na quinta-feira (4/6), o presidente francês Emmanuel Macron descreveu Satrapi como "uma grande artista" que transformou sua infância em "uma lenda universal". Ele acrescentou que, por meio de "sua perspectiva infantil, seu humor, sua bondade e seus demônios interiores", ela criou "uma obra universal deslumbrante na qual os leitores se viam refletidos".
O cartunista francês Joann Sfar escreveu no Instagram: "Você mudou o mundo com quadrinhos, e você não se importava com quadrinhos. Perdi minha irmã gêmea." O autor franco-sírio Riad Sattouf, criador de O Árabe do Futuro, escreveu: "Seu trabalho abriu um caminho que muitos seguiram; e, acima de tudo, eu."
Infância e formação
Marjane Satrapi nasceu em 22 de novembro de 1969, em Rasht, no centro-norte do Irã, em uma família com visões políticas de esquerda. Sua mãe era descendente do xá Nasser al-Din Xá Qajar, monarca da Pérsia entre 1848 e 1896. A política estava profundamente entrelaçada com a história de sua família, e vários parentes sofreram prisão ou repressão.
Sua família mudou-se para Teerã, onde ela cresceu. Tinha nove anos quando a Revolução Iraniana eclodiu, e sua adolescência coincidiu com o aumento das restrições às liberdades individuais, particularmente a repressão às mulheres e as limitações à liberdade de vestimenta. O tio Anoosh, membro proeminente do movimento comunista iraniano, foi executado por suas convicções políticas.
Em 1983, aos 14 anos, durante a Guerra Irã-Iraque, foi enviada para Viena, onde passou a adolescência isolada. Após concluir o ensino médio, retornou ao Irã em 1989 e estudou Comunicação Visual na Faculdade de Belas Artes da Universidade Islâmica Azad. Após um casamento fracassado, mudou-se para a França em 1994. Até 1997, estudou ilustração em Estrasburgo antes de se mudar para Paris, onde desenvolveu carreira em pintura e literatura infantil, além de contribuir para revistas como The New Yorker e The New York Times.
Persépolis e o impacto internacional
No início dos anos 2000, Satrapi publicou sua autobiografia em quadrinhos Persépolis, na qual relata sua infância sob a República Islâmica e sua partida para a Europa. Com estilo visual simples e páginas em preto e branco, retrata a complexidade da sociedade iraniana e as consequências da ascensão do Aiatolá Khomeini ao poder. Em entrevistas, afirmou que, aos 10 anos, se preparava para se tornar uma prisioneira política, pois tal possibilidade lhe parecia plausível.
A Guerra Irã-Iraque (1980-1988) também ocupa lugar de destaque no livro, transformando bombardeios aéreos em realidade diária. No entanto, Satrapi não concebeu a narrativa como puramente trágica: a adolescência é apresentada como período de rebeldia, descoberta musical e desafio, com resistência cotidiana à polícia da moralidade.
O primeiro volume de Persépolis ganhou um prêmio no Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, na França, em 2001. Seguiram-se mais três volumes e, em 2007, a obra foi adaptada para o cinema por Satrapi e Vincent Paronnaud. O filme ganhou dois prêmios César e o Prêmio do Júri no Festival de Cannes naquele ano. À época, ela declarou: "Embora este filme seja universal, eu o dedico a todos os iranianos."
A autobiografia em quadrinhos foi traduzida para diversos idiomas, permitindo que milhões de leitores compreendessem a Revolução Iraniana, a Guerra Irã-Iraque, o exílio e as contradições da identidade moderna. Recebeu inúmeros prêmios, incluindo o Prêmio da Feira do Livro de Frankfurt e o Prêmio Alex da Associação Americana de Bibliotecas.
Controvérsias e críticas
O lançamento de Persépolis não foi isento de controvérsias. Em 2007, o Ministério da Cultura e Orientação Islâmica do Irã apresentou protesto formal à embaixada francesa em Teerã devido à exibição do filme no Festival de Cannes. A Fundação Farabi de Cinema descreveu a obra como "anti-iraniana", concebida para incitar a opinião pública mundial contra a República Islâmica. O filme também provocou protestos quando exibido no canal tunisiano Nessma, com críticas de círculos religiosos que o classificaram como "blasfemo" por retratar Deus em forma humana.
Outras obras e trajetória
Após Persépolis, Satrapi criou a graphic novel Bordados (2003) e Frango com Ameixas (2005), que ganhou prêmio em Angoulême e foi adaptado ao cinema em 2011. Em 2019, dirigiu Radioactive, drama biográfico sobre Marie Curie. Durante o movimento Mulher, Vida, Liberdade, iniciado após a morte de Mahsa Amini, Satrapi tornou-se figura proeminente no debate público. Em 2023, publicou a graphic novel Mulher, Vida, Liberdade, em colaboração com mais de vinte ilustradores, explorando as raízes históricas e políticas do movimento.
Exílio e posicionamento político
Satrapi adquiriu a cidadania francesa em 2006, mas não hesitou em criticar as políticas francesas. Em 2024, recusou a Legião de Honra, a mais alta condecoração do Estado francês, citando o que descreveu como a "política hipócrita" do governo em relação ao Irã. Em sua mensagem de recusa, argumentou que filhos da oligarquia iraniana podiam passar férias na França com facilidade, enquanto jovens iranianos que lutavam pela liberdade não conseguiam vistos de turista.
Grande parte da obra de Satrapi explorou a interseção entre experiência pessoal e história política. Ela demonstrou que uma vida individual pode servir como espelho para toda uma era histórica e que os quadrinhos podem ser ferramentas de memória e resistência contra a simplificação política.
Com informações de BBC News Brasil.