A escritora, editora, tradutora e ex-deputada catalã Mar García Puig esteve em São Paulo para uma série de eventos, incluindo a Feira do Livro do Pacaembu, para apresentar A história dos vertebrados, recém-lançado no Brasil pela editora Bazar do Tempo, com apoio do Instituto Ramon Llull. Em entrevista à Cult, ela relatou como a literatura a ajudou a compreender a crise de ansiedade e pensamentos obsessivos que viveu após o nascimento de seus filhos gêmeos, em 2015, no mesmo dia em que foi eleita deputada pela coalizão En Comú Podem.
Pesquisa e identificação com histórias reais
Formada em Filologia Inglesa, García Puig recorreu à literatura para entender sua própria experiência. “Comecei a encontrar histórias de mulheres desde a Antiguidade – mulheres que, desde sempre, tinham passado por situações muito parecidas”, afirma. O caso que mais a marcou foi o de Emma Riches, uma jovem mãe inglesa internada no hospital psiquiátrico de Bethlem após cada parto. Ao ler os prontuários médicos, a autora sentiu “muita compaixão e muita afinidade” pelas palavras de Emma.
Exposição pessoal e recepção do livro
Sobre a decisão de expor sentimentos íntimos, como o medo dos próprios filhos, García Puig diz: “Para mim, a literatura vence”. O livro, que combina autobiografia, crítica social e história da medicina, venceu o Prêmio Cidade de Barcelona de Ensaio em 2023. Na Espanha, foi bem recebido por leitores e até por psiquiatras e psicólogos, apesar de críticas minoritárias nas redes sociais. “A literatura pode explicar coisas às quais a psiquiatria não consegue chegar”, avalia.
Crítica à psiquiatria e ao estigma
García Puig critica tanto a romantização da loucura quanto sua redução a um desequilíbrio químico. “A loucura é muito complexa e implica muito sofrimento”, afirma. Ela destaca que 80% da medicação psiquiátrica na Espanha é prescrita para mulheres, o que atribui a fatores sociais, como violência e precariedade. A autora também menciona a volta do uso de eletrochoques na Catalunha e a permanência de contenções mecânicas, práticas proibidas em países nórdicos.
Experiência na política e maternidade solitária
Sobre sua atuação como deputada, García Puig relata que ouvia comentários como “não fique tão nervosa” e “você tem que sorrir”. Apesar do apoio familiar, sentia-se sozinha na maternidade, uma solidão que associa à figura da Virgem Maria, presente em sua formação católica. “A tarefa de ser mãe é muito solitária”, diz.
Projetos futuros
A autora, que não pretende retornar à política, publicou em 2025 o ensaio Això tan tenebrós (Esta coisa escura) e planeja um novo livro sobre a mortalidade nos manicômios espanhóis durante a Guerra Civil (1936-1939), tragédia que considera pouco conhecida.
Com informações de Revista Cult.