O manifesto publicado pela Palantir, empresa de análise de dados do Vale do Silício, sintetiza em 22 pontos uma visão de mundo que a antropóloga Letícia Cesarino classifica como neorreacionária. No quarto ponto, o documento critica as “limitações do poder brando” e defende que “a capacidade das sociedades livres e democráticas de se afirmarem exige mais do que um apelo moral. Exige poder coercitivo, e o poder coercitivo neste século será baseado em software”.
Segundo Cesarino, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), os fundadores da Palantir, Peter Thiel e Alex Karp, enxergam na crise da democracia uma oportunidade para substituí-la. “Eles não acreditam em reformar o atual sistema político-institucional. Eles veem o colapso como oportunidade para mudar o próprio princípio da soberania, sobre o qual os atuais Estados-nação foram construídos nos últimos quatro séculos, para uma soberania de base privada”, afirmou em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos (IHU).

Visão de mundo neorreacionária
Cesarino destaca que o manifesto, chamado por alguns de “técnico-fascista”, reflete uma corrente de pensamento que ganha força no Vale do Silício, presente também em figuras como Elon Musk, Mark Zuckerberg e Jeff Bezos. A Palantir, por sua atuação em vigilância e inteligência voltada para guerra, incorpora a premissa neorreacionária de que a democracia está em seus dias finais. Para esses grupos, um horizonte de colapso institucional e social, com guerras e escassez, justificaria o reforço de aparatos bélicos e de defesa, com a IA como elemento central.
A pesquisadora aponta que o manifesto revela uma dimensão eugenista, sugerindo que populações do Sul Global seriam deixadas para trás em um cenário de colapso. “Os EUA e demais nações ocidentais precisam se precaver, reforçar seus aparatos bélicos e de defesa”, interpreta.

Projeto de soberania privada
Cesarino explica que a aproximação de Thiel com políticos como Donald Trump e Javier Milei não visa reformar o Estado democrático, mas sim substituí-lo por uma soberania de base privada. Essa visão está explicitada no livro The Sovereign Individual, dos anos 1990, que influenciou Thiel durante a fundação do PayPal. A obra defende a criação de novos estados liderados por uma “elite cognitiva”, com criptomoedas e redes sociais como estruturas paralelas ao sistema tradicional.
“Estes não seriam, obviamente, democracias, mas estados menores geridos como empresas. Os cidadãos não teriam voto nem voz, mas seriam clientes que, se insatisfeitos, poderiam se mudar para outro lugar”, descreve. O modelo combinaria elementos gerenciais com autocráticos, representando uma revolução na concepção de soberania comparável à Paz de Westfália.

Interesse de Thiel na Argentina
A viagem de um mês de Peter Thiel à Argentina e a compra de uma casa em Buenos Aires indicam, segundo Cesarino, um projeto de construção de enclaves soberanos paralelos. O livro The Sovereign Individual menciona a Argentina e a Nova Zelândia como locais ideais para esse novo mundo, por terem populações esparsas, clima temperado e terras produtivas. Thiel já havia comprado terras na Nova Zelândia, mas encontrou dificuldades. A localização geográfica desses países, distantes de regiões com arsenal nuclear, também é um fator relevante.
Interferência em eleições brasileiras
Sobre as eleições brasileiras de 2026, Cesarino avalia que não há um plano consolidado de interferência por parte de Trump, Steve Bannon ou Thiel, mas que eles já possuem os meios para agir se desejarem. “O mais importante não é se e quando eles tomarão uma decisão de interferir, mas, sim, o fato de que eles podem fazê-lo se e quando quiserem”, afirma.
A pesquisadora aponta que o governo brasileiro tenta se movimentar com decretos sobre o Marco Civil da Internet, mas o Congresso não produziu uma norma regulatória. Ela considera que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sob a presidência do ministro Nunes Marques, não deve se dedicar ao tema em 2026. “A banalização das IAs generativas e os disparos automatizados vão deixar tudo mais caótico”, prevê.
Cesarino sugere atenção especial ao Instagram, que, desde a última eleição de Trump, tornou-se uma plataforma de impulsionamento de radicalização política e misógina. “Se tiver uma interferência, ela viria pelo impulsionamento discreto do Instagram”, conclui.
Com informações de Brasil de Fato — leia a matéria original.