Os manguezais, ecossistemas costeiros que protegem contra tempestades e absorvem grandes volumes de gases do efeito estufa, estão revertendo seu declínio de forma inesperada, segundo cientistas. Um novo estudo indica que, desde 2010, o crescimento anual dessas áreas supera as perdas, impulsionado por fortalecimento de leis ambientais e conscientização pública.

Recuperação após décadas de perdas

Entre os anos 1980 e 2010, mais de 12 mil quilômetros quadrados de manguezais foram destruídos na Ásia, África e América, área equivalente a duas vezes o Distrito Federal. A derrubada ocorreu para construção de casas, criação de peixes e expansão agrícola. No entanto, o novo estudo mostra reversão: a perda líquida total desde os anos 1980 caiu para cerca de 849 km².

O principal fator, segundo os pesquisadores, é a notável capacidade natural de regeneração quando a ação humana cessa. Além disso, desastres como o tsunami de 2004 no Oceano Índico aumentaram a percepção sobre a importância dos manguezais como barreiras naturais.

Benefícios ambientais dos manguezais

Esses ecossistemas armazenam até cinco vezes mais dióxido de carbono por área que as florestas terrestres. Suas raízes emaranhadas reduzem a velocidade das ondas e protegem comunidades litorâneas contra marés de tempestade e tsunamis. Também servem como berçário para diversas espécies de peixes e animais marinhos, abrigando-os de predadores e fornecendo alimento.

Ameaças persistentes e impactos regionais

Parte da expansão dos manguezais pode ter ocorrido às custas de danos rio acima. Em países como o Brasil, o crescimento se deu em margens de rios e litorais devido ao excesso de nutrientes nos sedimentos, vindos de desmatamento e mineração no interior. "Esta é uma boa notícia para os manguezais", disse Pete Bunting, da Universidade de Aberystwyth, coautor do estudo. "Mas só é realmente boa se não houver completa desordem rio acima."

A recuperação não foi uniforme. A África central e oriental ainda apresentam focos de destruição. "O delta do rio Níger é o símbolo dos impactos da poluição sobre os manguezais", afirmou Bunting, referindo-se à contaminação por petróleo e oleodutos. Ciclones tropicais também continuam causando perdas significativas anualmente, da Austrália ao Caribe.

Caminho positivo, mas com ressalvas

Os autores concordam que a tendência é positiva. "Estamos seguindo na direção certa, com redução clara do nível de perda", explicou Zhen Zhang, outro pesquisador. O estudo também revelou que a proporção de manguezais com dossel fechado — os mais ricos em carbono — aumentou cerca de 20% desde os anos 1980. "Por isso, acho que estamos no caminho certo", concluiu Zhang.