A escritora norte-americana Lydia Davis, uma das mais importantes da atualidade, concedeu entrevista à revista Cult por ocasião do lançamento no Brasil de Um pato amado é assado: Ensaios práticos sobre práticas de escrita, publicado pela WMF Martins Fontes na coleção Errar Melhor. O livro, traduzido por Camila von Holdefer, é uma seleção de textos não ficcionais originalmente publicados em Essays One (2019), com recorte focado nas partes intituladas “The Practice of Writing”.
Na conversa, realizada por vídeo em sua casa em East Nassau, vilarejo com menos de 600 habitantes no estado de Nova York, Davis, prestes a completar 79 anos, refletiu sobre sua trajetória literária, ambições de juventude, processo de escrita e temas como ativismo climático e inteligência artificial.
Evolução da escrita e relação com os leitores
Davis afirmou que sua escrita não evoluiu no sentido de deixar leitores para trás, mas a forma mudou: seus contos mais antigos eram mais longos e estruturados de modo tradicional, com trama, personagens e diálogos, enquanto muitos se tornaram cada vez mais curtos. “Permiti que minha escrita evoluísse da maneira que ela própria desejasse; jamais disse a ela: ‘Você precisa entregar o que seus leitores esperam’”, declarou. Ela destacou que não alterou seu estilo para ser publicada: “Encontrei, após algum tempo, uma editora disposta a publicar o que eu escrevia.”
Sobre a diferença entre contos tradicionais e não convencionais, Davis citou a revista The New Yorker como exemplo: “Ainda publica o que considero contos tradicionais. Beckett, Kafka e Borges ainda são deslocados – muitos leitores preferem ler sobre um casal suburbano que vai a uma festa de Ano-Novo.”
Inteligência artificial e ativismo climático
Davis manifestou preocupação com o avanço da inteligência artificial. “Participo de um clube de leitura; decidimos ler Bacteria to AI, de N. Katherine Hayles. Fico muito mexida com essa questão”, disse. Ela criticou a construção de gigantescas instalações de IA nos Estados Unidos, que consomem água e eletricidade, e podem ser abandonadas em caso de falência das empresas. “Não gosto da inteligência artificial.”
Como ativista climática, Davis contou que integra um comitê climático em seu vilarejo, focado na substituição do petróleo por energias renováveis e no plantio de plantas nativas. “Transformamos o que antes era um estacionamento em um parque com vegetação; recentemente plantamos nossos dois primeiros carvalhos, as árvores que mais beneficiam os insetos nos Estados Unidos.”
Formas breves e o romance
Davis explicou a diferença entre formas breves e fragmentos: “Um fragmento é somente uma nota, uma sentença não concluída. Comecei a escrever textos muito curtos quando traduzia Proust; queria que fossem completos e provocassem impacto.” Sobre seu romance O fim da história (José Olympio, 2016), ela disse que nunca se interessou por escrever um romance convencional com trama. “Bem no começo, pensava que era isso que se devia fazer. Depois percebi que é possível criar uma ficção muito próxima da realidade.”
Ao final da entrevista, a Cult publica o conto inédito Courtesy in a French City, de Lydia Davis, em sua primeira publicação tanto em inglês quanto em português, com tradução de Felipe Franco Munhoz.
Com informações de Revista Cult.