O presidente Luiz Inácio Lula da Silva embarcou no domingo (14) para Évian-les-Bains, na França, onde participa da cúpula do G7 entre segunda (15) e quarta-feira (17). Convidado pelo presidente francês Emmanuel Macron, Lula aproveitará o encontro das sete maiores economias do mundo para criticar a proposta dos Estados Unidos de aplicar tarifas de 25% sobre produtos brasileiros e defender o multilateralismo em meio à crescente pressão comercial norte-americana.

A decisão de participar foi tomada após o governo de Donald Trump sinalizar a sobretaxa. Em reunião ministerial realizada em 3 de junho, Lula afirmou que inicialmente não pretendia ir à cúpula, mas as novas taxações mudaram seus planos. “Eu nem ia no G7, agora eu vou. É preciso alguém tentar colocar ordem na casa e parar essa coisa de desmonte do multilateralismo, da democracia e desvalorização das instituições”, declarou.

Pressão comercial dos EUA

O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sugeriu, com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana, a aplicação de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros. Além disso, Washington estuda impor uma taxa adicional de 12,5% a cerca de 60 países, incluindo o Brasil, sob alegação de falhas no combate ao trabalho forçado. As duas medidas representam uma pressão comercial sem precedentes recentes e transformaram a presença de Lula no G7 em uma resposta política direta ao governo Trump.

Possível encontro com Trump

Não há agenda oficial para um encontro bilateral entre Lula e Trump durante a cúpula. No entanto, segundo apuração da Revista Fórum com fonte da diplomacia brasileira, a hipótese de um contato entre os dois líderes está sendo estudada e não pode ser descartada. Um encontro informal à margem do evento, como ocorreu na reunião da ONU no ano passado, permanece como possibilidade. Os encontros confirmados na agenda de Lula são com Macron e com a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi.

Cenário geopolítico e pauta brasileira

A cúpula de Évian-les-Bains reúne líderes de Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá em um momento de múltiplas crises. Conflitos no Oriente Médio, desdobramentos envolvendo o Irã, a guerra na Ucrânia, desequilíbrios macroeconômicos globais e a disputa por minerais críticos fora da China devem dominar as discussões. A cúpula começa logo após Estados Unidos e Irã anunciarem um acordo preliminar, cujos termos exatos ainda não são públicos.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, foi convidado e terá uma sessão de trabalho com Trump. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Egito, Índia, Quênia e Coreia do Sul também participarão como convidados. O Brasil integra esse grupo de países externos ao núcleo do G7, mas com peso político próprio. A França, anfitriã, trabalha para preservar a unidade do grupo e evitar atritos com Trump, que deixou antecipadamente a cúpula realizada no Canadá no ano passado. O retorno de Trump ao G7 é tratado como uma vitória diplomática de Macron, ainda que o ambiente seja de cautela.

Nesse cenário, a posição brasileira é a de um país do Sul Global que não compõe o clube das grandes economias industrializadas, mas que foi chamado à mesa justamente quando as tensões comerciais e geopolíticas tornam sua voz mais relevante. A agenda de Lula não se confunde com a dos membros do G7: enquanto o grupo discute guerras e minerais estratégicos, o Brasil chega com uma pauta de soberania comercial e reforma das instituições multilaterais.

Críticas ao unilateralismo e ação interna

Lula deve usar sua intervenção na cúpula para criticar o enfraquecimento da Organização Mundial do Comércio (OMC) e o avanço do unilateralismo, defendendo uma nova governança global. Em reunião ministerial, o presidente afirmou que enviará uma carta a Donald Trump acusando-o de descumprir o acordo firmado entre os dois na Casa Branca. “Vou escrever quantos artigos forem necessários na imprensa americana e na imprensa mundial para mostrar que eles estão errados”, disse.

O governo brasileiro avalia que, entre as medidas adotadas pelos EUA, a única com possibilidade real de revisão no curto prazo é a sobretaxa de 25%, que já é objeto de um grupo de trabalho criado após reunião anterior entre Lula e Trump. A taxa adicional de 12,5% e as classificações do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas são vistas como questões de resolução mais complexa e de prazo mais longo.

No plano interno, Lula foi além da crítica ao governo dos EUA. Em reunião ministerial, o presidente acusou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) de “traição à pátria” por articularem contra os interesses do Brasil nas sanções americanas. Lula chamou os filhos de Jair Bolsonaro de “vendilhões da pátria” e “traidores” ao comentar a articulação bolsonarista nos Estados Unidos, incluindo a recepção de Flávio Bolsonaro por Trump na Casa Branca. A declaração expõe a dimensão política interna das tensões comerciais: para Lula, o tarifaço não é apenas uma disputa entre governos, mas também um campo de disputa entre projetos de país.